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50 Tons de Cinza na perspectiva de um terapeuta sexual

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Depois da polêmica carta da psiquiatra sobre 50 Tons de Cinza, estamos postando agora o artigo de um terapeuta sexual com um ponto de vista um pouco diferente sobre os personagens e a influência do filme para a sociedade.

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Por: Dr. Dreyfus

A trilogia recente, 50 Shades of Grey de EL James, tomou o mundo como uma tempestade, com todos os três volumes na lista de best-sellers. Pessoas ao redor do mundo, especialmente as mulheres, têm lido esses livros aos milhões. Por quê? Porque elas estão quentes! Na minha época eles nunca seriam publicados, muito menos comentados de forma educada.

 





 

Dito isto, deixe-me começar por dizer que eu não pretendo rever estes livros em termos de mérito literário. Também não pretendo discutir o enredo em qualquer detalhe. Além disso, por mais tentador que seja, eu não farei uma análise psicológica do personagem principal, Christian Grey, um multimilionário, dono de uma empresa internacional, que seduz Anastasia Steele, uma linda estudante, e a apresenta ao seu estilo de vida sofisticado e ao seu mundo de dominação e submissão. Minha intenção é discutir algumas questões psicológicas e sexológicas importantes levantadas pelos livros.
As pessoas são influenciadas pelo que lêem. Elas vão se comparar com os personagens. Elas vão querer experimentar. Em 50 Tons de cinza o leitor é apresentado a um mundo de exploração sexual. E é por isso que eu estou escrevendo este artigo. Enquanto a história é ficção, as atividades sexuais específicas não são. Os personagens são fictícios. Assim como os livros surgiram da imaginação de seu autor, eles capturam a imaginação das pessoas que os leem.
O que eu pretendo fazer é discutir vários aspectos das explorações sexuais descritas nos livros e oferecer uma perspectiva psicológica com algumas orientações de um terapeuta sexual.
Como terapeuta sexual e psicólogo, estou muito satisfeito que os livros tenham sido publicados e que estão sendo lidos por muitas pessoas. É sobre a época em que o sexo se tornou o principal. Talvez esses livros darão início a uma nova geração de livros com conteúdo sexual explícito. Talvez eles pavimentem o caminho para que as pessoas sejam capazes de discutir temas sexuais de maneira tão aberta quanto discutir sobre um livro. Afinal, se o sexo é tão bonito, por que mantê-lo tão oculto?

A maioria das pessoas tem fantasias sexuais. Algumas fantasias são mais elaboradas do que outras. Isso é saudável ​​e emocionante. Infelizmente, as pessoas tendem a se julgar pelas suas fantasias. 50 tons de cinza dá às pessoas permissão para ter fantasias sexuais. EL James tem compartilhado suas fantasias sexuais com o mundo. Talvez ela possa inspirar os leitores a compartilhar suas fantasias sexuais com seus parceiros. Compartilhar fantasias é uma atividade íntima. Ela cria um vínculo de maneira semelhante a uma partilha de segredos íntimos.

Para muitas pessoas, 50 Tons de cinza é a primeira exposição a várias maneiras diferentes em que os seres humanos podem fazer sexo. É a sua primeira exposição ao mundo de dominação e submissão (BDSM = bondage, disciplina, sadismo, masoquismo). A maioria das pessoas estão acostumadas apenas ao que é referido no livro como sexo “vanilla”, a forma habitual em que as pessoas se envolvem em relações sexuais. Se você deseja experimentar ou não, isso depende só de você e seu parceiro. Você não será ´´estranho´´ se desejar experimentar, nem será ´´rígido ou tenso´´ se não desejar. Quão longe você ir em qualquer direção é inteiramente com você. Sexo é para ser divertido, um momento para brincar, e um momento para se conectar.

 

Assim como não há nada de intrinsecamente ruim ou errado com a pornografia, não há nada de intrinsecamente errado, doente, ou estranho sobre os jogos sexuais consensuais entre adultos. É importante entender a ênfase sobre a palavra jogo. É divertido. Realizar fantasias sexuais com o parceiro/a pode ser divertido, erótico e estimulante. É quando tais comportamentos são abusivos, prejudiciais, ou feitos sob coação, que se tornar problemáticos. Nos livros, o autor deixa bem claro que essas atividades devem ser feitas com o consentimento expresso de ambas as partes, com precauções extremas para a segurança de ambas as partes, e incluem certas “palavras ou sinais” que, quando proferidas ou gesticuladas, suspendem imediatamente toda a atividade. Há uma enorme diferença entre BDSM feito para o prazer e diversão de ambas as partes, e os comportamentos semelhantes que são para o prazer de uma pessoa em detrimento da outra.





 

Christian Grey é apresentado como um jovem extremamente viril, capaz de ter orgasmos múltiplos em poucos minutos um do outro. Ele é retratado como possuindo uma incrível resistência e disposto a fazer sexo a qualquer momento. Isso é uma fantasia. É semelhante ao que é visto em filmes pornográficos, onde o personagem principal parece ser capaz de manter a atividade sexual por períodos prolongados. Quando os homens veem esses filmes, muitas vezes acreditam que devem ser capazes de se comportar como uma “estrela pornô”. O resultado é que eles acabam se sentindo inadequados. Christian Grey é um personagem fictício e qualquer semelhança com pessoas reais é mera coincidência. A maioria dos homens precisa de um longo período de tempo entre orgasmos; quanto mais jovem, menor o período refratário.
Anastasia Steele é apresentada como uma mulher capaz de atingir múltiplos orgasmos dentro de poucos minutos um do outro. Minha preocupação aqui é que muitas mulheres e seu parceiros esperem ter um desempenho semelhante ao Christian e Anastasia. Este casal é fictício, um produto da imaginação do autor. Algumas mulheres são capazes de ter orgasmos múltiplos, outras não. Ambas são normais. Algumas mulheres experimentam orgasmos explosivos enquanto outras experimentam orgasmos menos intensos, mas que podem durar mais tempo, enquanto outras ainda têm espasmos menos intensos e bastante curtos. Cada organismo é diferente. Algumas mulheres podem atingir o orgasmo através da relação sexual, enquanto outras precisam de estimulação clitoriana mais direta, por via oral ou manualmente. Ambas são normais.

 

Espero que um dos principais benefícios desta trilogia seja o de incentivar as pessoas a falarem mais abertamente sobre sexualidade. Talvez esse trabalho, e os outros que seguirem, traga a sexualidade para fora do armário para se tornar parte do diálogo comum, em vez de mero sussurro em segredo. Eu me lembro da época em que os filmes não mostravam a intimidade das pessoas no banheiro além de se barbear e lavar o rosto. Nós evoluímos e passamos a presenciar cenas de sexo mais explícitas no cinema. O mesmo está ocorrendo em livros e revistas. Talvez a revolução sexual, que começou nos anos 60 e 70 continue a evoluir.

Fonte: DrReyfus traduzido e adaptado por Psiconlinews

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