O poder da sugestão: Você é capaz de saber quando está sendo manipulado?

Por Krissy Wilson

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Uma grande indústria surgiu a partir da ideia de que podemos mudar e melhorar nossas nossas vidas através do poder da sugestão. Livros, revistas e programas de TV oferecem maneiras em que a auto-hipnose pode nos ajudar a parar de fumar, reforçar nossa carreira e melhorar nossa vida amorosa. Infelizmente, a evidência é em grande parte anedótica e subjetiva, mas existe um suporte científico considerável para o poder da sugestão em um ambiente terapêutico, como afirma Henderson (2003, p.170): “A eficácia da sugestão tem sido demonstrada ocasionalmente em cada campo da medicina e do comportamento humano. De fato, em praticamente todas as pesquisas sobre drogas com os seres humanos, a sugestão tem se mostrado eficaz. Em muitos casos, o placebo foi mais eficaz do que o farmacêutico testado!


A noção de ‘sugestionabilidade’ é de interesse para os psicólogos de todas as áreas da disciplina, uma vez que engloba uma ampla variedade de áreas relacionadas a fatores cognitivos, sociais e da personalidade. Abordaremos aqui a sugestionabilidade sob uma ampla variedade de contextos, para considerar se ela é um traço de personalidade ou um viés cognitivo, e quem é suscetível.

O poder do placebo

Simplesmente acreditar que algo faz bem pode de fato fazer uma diferença positiva. Em muitos ensaios clínicos de drogas, uma parcela considerável de pessoas apresentou uma melhoria mensurável, observável ou sensível em sua condição ao tomar nada mais do que um placebo inerte. Charron (2006), por exemplo, mostrou o poder dos placebos em pacientes que sofrem de dores nas costas, e resultados semelhantes foram encontrados em resposta ao desconforto da síndrome do intestino irritável (por exemplo, Conboy et al., 2006), e na avaliação dos efeitos da homeopatia (por exemplo Walach et al., 2005). Os efeitos podem ser grandes: Kirsch e Sapirstein (1998) realizaram uma meta-análise de 39 estudos, alguns sobre a eficácia do Prozac em pacientes que sofrem de depressão, e concluiu que o placebo poderia ser responsável por mais de 50% das melhorias relatadas no estudo. O mecanismo preciso pelo qual o efeito placebo funciona não é conhecido, mas é claro que a crença de que algo funciona pode ter um poderoso efeito psicológico.

Distorções da memória

A maior parte da pesquisa que analisou a natureza da sugestão centrou-se sobre o seu impacto na memória. Elizabeth Loftus, por exemplo, demonstrou como questões direcionadas e informações sugestionadas podem falsear seriamente a memória de uma pessoa sobre um evento observado (por exemplo, Loftus, 1979).

O efeito pernicioso dos procedimentos sugestivos, que também tem sido investigado, é com relação à criação de falsas memórias numa terapia. Anos de pesquisas empíricas sugerem que falsas memórias de abuso sexual na infância, relatos de abdução alienígena e contos detalhados sobre vidas passadas, muitas vezes compartilham uma característica comum. Em muitos casos, estas ´´memórias-fantasiadas´´ surgiram em resposta à uma hipnose ou outro procedimento sugestivo realizado por psicoterapeutas e entusiastas mal orientados. No entanto, é também provável que as próprias crenças pré-existentes do cliente possam ser suficientes para gerar falsas memórias, mesmo na ausência de sugestões explícitas de um psicoterapeuta.

Técnicas sugestivas também foram criteriosamente analisadas ​​dentro de um cenário forense e, em particular, na maneira em que os suspeitos e testemunhas são interrogados pela polícia e investigadores. Sugestionabilidade interrogativa é “a ocasião em que, dentro de uma interação social fechada, a pessoa passa a aceitar as mensagens transmitidas durante um interrogatório formal, como resultado do modo em que a sua resposta comportamental subsequente será afetada´´ (Gudjonsson, 1987, p.215). Bruck e Ceci (1996) relatam que a sugestionabilidade interrogativa pode ocorrer por conta de certas características pessoais ou em situações particulares. Além disso, a sugestionabilidade interrogativa depende do grau de influência do entrevistador e da pressão que pode exercer sobre o entrevistado, contaminando assim a memória do indivíduo.

Um bem documentado e vívido exemplo do poder do questionamento sugestivo é o caso de Paul Ingram (Wright, 1994). Em 1988, a filha de Ingram acusou seu pai de abuso infantil e Paul Ingram foi posteriormente levado para interrogatório pela polícia local. Inicialmente, ele alegou não se lembrar de nada, mas durante o interrogatório Ingram ouviu por várias vezes que ele havia cometido os crimes, e foi instado a imaginar os alegados eventos. Eventualmente, Ingram passou a confessar aos policiais atos cada vez mais bizarros. Richard Ofshe, um psicólogo, foi convidado a avaliar Ingram e, posteriormente, forneceu elementos de prova no caso. Ele foi ver Ingram na prisão e sugeriu uma história completamente inventada de incidentes e atos criminosos que Ingram supostamente havia praticado contra sua família. Ofshe instruiu Ingram para que pensasse no assunto, assim ele conseguiu provar que as acusações dos crimes foram completamente fabricadas por sugestionamento. Apesar disso, Ingram foi condenado por múltiplas acusações e passou muitos anos na prisão, mas finalmente foi solto em 2003.

Parece quase impossível acreditar que alguém pudesse confessar um crime que não cometeu, mas histórias semelhantes sobre os efeitos das técnicas sugestivas foram demonstradas em outros casos de falsa confissão. Kassin (1997) mostrou como certos indivíduos confrontados com interrogatórios policiais emocionalmente estressantes confessaram crimes terríveis, e em alguns casos chegaram ao ponto de acreditar que realmente eram culpados.

Sugestão – É mágica!


Os mágicos vêm explorando a nossa vulnerabilidade à sugestão durante séculos para conseguir todo tipo de ilusões e truques manuais. Uma das ferramentas básicas mais utilizada pelos mágicos é a manipulação do foco, possibilitada pelo poder da sugestão. Por exemplo, quando a sugestão verbal consegue desviar a atenção do público, o magico treinado então é capaz de substituir ou remover objetos. Curiosamente, muitos mágicos afirmam que é muito mais fácil enganar uma sala cheia de cientistas do que uma sala cheia de crianças, uma vez que a mente científica vai olhar para a causa e o efeito, já as crianças serão mais propensas a confiar em sua observação (Gaddis, 2004).

Sugestão e o paranormal

Tal como acontece com mágicos, o uso da sugestão é uma ferramenta poderosa para convencer o público religioso. Muitos céticos têm escrito sobre o uso de truques e trapaças em demonstrações de habilidades paranormais, principalmente por pastores, videntes e médiuns (por exemplo, Randi, 1980; Wilson, 2006). No entanto, o uso da sugestão verbal em manifestações pseudo-psíquicas não tem sido explorada cientificamente até pouco tempo.

Wiseman (2003) descreve dois experimentos nas quais observaram a sugestão em uma sala de sessão, queriam saber se a crença no paranormal tornaria os participantes mais propensos à sugestão. Em seu primeiro experimento, cerca de um terço das testemunhas erroneamente relatou que uma mesa havia se movimentado durante a sessão, seguindo a sugestão do falso médium para esse efeito. Os que acreditavam no paranormal foram mais propensos a relatarem o falso movimento do que os descrentes. Os crentes se mostraram mais suscetíveis à sugestão do que os descrentes em um segundo conjunto de falsas sessões também, mas somente quando a sugestão era congruente com a sua crença no paranormal. Por exemplo, se o falso médium sugeria que um objeto não havia se movido, quando na verdade havia (por meio de trapaças), os crentes passavam a não ser mais propensos a aceitar a sugestão. No geral, cerca de um quinto dos participantes acreditaram que tinham testemunhado fenômenos paranormais genuínos. Como Wiseman e seus colegas apontam, não está claro se a sugestão verbal afetou diretamente a percepção dos participantes no evento, a memória deles sobre o evento, ou ambos.

O papel das diferenças individuais

Dada a variedade de situações em que a sugestão pode influenciar as nossas vidas e comportamentos, seria justo supor que a nossa vulnerabilidade à sugestão seja algo comum a todos os seres humanos. Gaddis (2004, p.4), por exemplo, diz: “É um fato psicológico que o primeiro impulso das pessoas é acreditar. Duvidar geralmente é um ato secundário. E o poder da sugestão exerce uma enorme influência sobre as nossas vidas e opiniões”.

Uma quantidade considerável de pesquisas têm explorado uma série de diferenças individuais que podem se correlacionar com a sugestibilidade. Por exemplo, a inteligência de uma pessoa tem um efeito sobre se ela é ou não sugestionável em situações de interrogatório. Aqueles com um nível médio, ou acima da média, de inteligência e capacidade cognitiva, provavelmente será mais capaz de avaliar se as informações são enganosas (Boon e Baxter, 2004). Além de inteligência, um estudo descobriu que indivíduos altamente condescendentes são mais suscetíveis à sugestão. Além disso, aqueles com baixa auto-estima de competência, que se veem como pouco eficientes em situações de realização, são suscetíveis ao questionamento sugestivo e feedback negativo dos interrogadores, porque eles podem duvidar de suas próprias opiniões, acreditando, assim,  que a informação enganosa seja a fonte mais confiável (Peiffer & trull, 2000). Curiosamente, Peiffer e Trull (2000) só testaram participantes do sexo feminino, porque estudos anteriores haviam encontrado diferenças de sugestibilidade para cada gênero (por exemplo, Loftus et al., 1991). No entanto, os resultados ainda não são conclusivos sobre esta questão.

É claro, então, que muitos de nós sejam suscetíveis a vários tipos de sugestão, seja quem confia, figuras de autoridade, livros de autoajuda ou pesquisadores que investigam os efeitos da memória. O que talvez seja menos claro é por que somos tão suscetíveis e quais são os mecanismos por trás da sugestionabilidade.

Dr Krissy Wilson é um professor na Universidade Charles Stuart, Austrália

Referências
Boon, J.C.W. & Baxter, J. S. (2004). Minimizando estranho, à base de sugestionabilidade interrogativa entrevistador. Legal e Psicologia forense, 9, 229-238.

Bruck, M. & Ceci, S.J. (1996). Desafios da validação científica de entrevistas com crianças pequenas. Monografias da Sociedade de Pesquisa em Desenvolvimento Infantil, 61 (4-5), 204-214.

Charron, J., Rainsville, P. & Marchand, S. (2006). A comparação direta dos efeitos do placebo na dor clínica e experimental. Jornal Clínica da Dor, 22, 204-211.

Conboy, LA, Wasserman, RH, Jacobson, EE et al. (2006). Investigando os efeitos do placebo em síndrome do intestino irritável. Ensaios Clínicos Contemporânea, 27, 123-134.

Gaddis, V. H. (2004). A arte do engano honesto. Acessado em www.strangemag.com/artofhonestdecept.html

Gudjonnson, G.H. (1987). Uma forma paralela do Suggestibility Escala Gudjonnson. British Journal of Clinical Psychology, 26, 215-221.

Henderson, C.E. (2003). Auto-hipnose para a vida que você quer. Biocêntrica Publishing.

Kassin, S.M. (1997). A psicologia de confissões falsas. American Psychologist, 52, 221-233.

Kirsch, I. & Sapirstein, G. (1998). Ouvindo Prozac, mas placebo auditiva. Prevenção e Tratamento, 1, do artigo 0002a. Disponível em http://psycnet.apa.org/journals/pre/1/2/2a/

Loftus, E. F. (1979). Depoimentos de testemunhas oculares. Cambridge, MA: Harvard University Press.

Loftus, E. F., Levidow, B. & Dwensing, S. (1992). Quem se lembra melhor? Psicologia Aplicada Cognitivas, 6, 93-107.

Peiffer, L.C. & Trull, T.J. (2000). Preditores de sugestibilidade e produção de falsas memórias em mulheres adultas jovens. Jornal de avaliação de personalidade, 74, 384-399.

Randi, J. (1980). Flam Flim. Buffalo, NY: Prometheus Books.

Walach, H., Jonas, W. & Lewith, G. (2005). São os efeitos clínicos da homeopatia efeitos placebo? The Lancet, 366, 2081.

Wilson, K. (2006). Segunda visão? Ou apenas um cego guiando outro cego? O [UK] Skeptic, 19 (1), 16-18.

Wiseman, R., Greening, E. & Smith, M. (2003). A crença no paranormal e sugestão na sala de sessão. British Journal of Psychology, 94, 285-297.

Wright, L. (1994). Lembrando Satanás. New York: Knopf.

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