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Em que consiste a histeria?

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A palavra “histeria” é derivada da palavra grega hystera,que significa matriz, útero. Segundo Roudinesco (1998), sua originalidade reside no fato de que os conflitos psíquicos se exprimem de maneira teatral e sob a forma de simbolizações, apresentando sintomas corporais momentâneos ou duradouros.





A histeria possuía uma característica predominantemente feminina desde a antiguidade. Na idade média, na Europa,o discurso religioso predomina, sendo a histeria considerada como possessão demoníaca. As convulsões eram vistas como expressão de prazer sexual e por isso, pecado.  No século XVIII a histeria sai do campo da teologia e ganha cena no campo científico. Médicos como Franz AtonMesmer, Pierre Briquet e Phillipe Pinel incluem a questão cerebral, social e psiquiátrica para pensar a histeria que já não era mais considerada exclusivamente feminina. No início do século XIX, o médico francês Phillipe Pinel, movido pela ideia Iluminista de que a ciência traria progressos a sociedade, institui a remoção das correntes de pacientes psiquiátricos em dois grandes hospícios de Paris (Bicêtre e Salpetrière).

Estudando as histéricas de Salpetrière Freud cria a psicanálise e fala de um sujeito de desejos,um sujeito guiado pela lógica do inconsciente. Segundo aponta Roudinesco “um sujeito livre, dotado de razão, mas cuja razão vacila no interior de sí mesma.” (ROUDINESCO,E.,1999.p.69). Um inconsciente que, no caso da histeria, se converte corporalmente e sustenta seu sintoma pela fantasia.

A neurologia procura uma localização cerebral e uma explicação em torno dos centros nervosos do organismo. A psiquiatria fala de um sujeito racional, tentando alcançar sua dignidade científica através da anatomia patológica e classificação dos sintomas. A psicanálise fala de um sujeito inconsciente, onde a razão não dita as regras, mas sim o desejo.

Para a psicanálise o sujeito se constitui na passagem pelo Complexo de Édipo. Freud utiliza esta metáfora para falar da perda da simbiose do bebê com a mãe, bem como a escolha dos objetos feita pela criança que vão orientar suas escolhas futuras. Lacan vai falar sobre o Édipo como uma lei estruturante que interdita o desejo. Logo, a cena histérica é entendida pela psicanálise como uma “outra cena”. Um sintoma que se coloca para falar de algo inconsciente. A histeria tem o seu desejo alienado ao desejo de um Outro que o sujeito elege como aquele que sabe sobre ele. Mas a fonte de angústia inicia justamente aí, pois todos os mestres eleitos também são castrados, são faltosos, não possuem a completude desejada.





A cultura contemporânea valoriza o individualismo e a competição, o culto ao corpo que funciona com um padrão de respostas. A globalização dá uma falsa sensação de igualdade e imputa a adesão ao modelo narcísico proposto pelo capitalismo. A mídia de forma perversa, divulga um padrão de beleza, de educação, de inclusão e comportamento sexual. Demandas que, como ressalta Quinet, chegam a nós como imperativos de ideias a serem seguidos, modelos de identificação que são fabricados pela publicidade (…) (QUINET.A, 2002, pag.280), e quem se recusa a esta lógica certamente é excluído. A impossibilidade da homogeneização bate a porta. A realidade da limitação do sujeito em responder a este quadro fictício de homem atual, que não pode sofrer, não pode parar, não pode discordar, não pode não ter, nos diz na verdade como nós não podemos ser. Ser sujeitos pensantes, sujeito de desejos e histórias singulares, independente da situação econômica, localização geográfica, cor da pele ou religião. Falando sobre essa sociedade Roudinesco afirma:

Quanto mais a sociedade apregoa emancipação, sublinhando a igualdade de todos perante a lei, mais ela acentua as diferenças. No cerne desse dispositivo, cada um reivindica sua singularidade, recusando-se a se identificar com as imagens da universalidade, julgadas caducas. Assim, a era da individualidade substitui a da subjetividade: dando a si mesmo a ilusão de uma liberdade irrestrita, de uma idependência sem desejo e de uma historicidade sem história, o homem de hoje transformou-se no contrário de um sujeito.”(ROUDINESCO,E. 1999; pag.13-14)

O termo “histeria” não se encontra mais nos manuais psiquiátricos hoje, mas o conjunto de seus sintomas se encontra em uma série de transtornos. Hoje podemos achar nos manuais dentre outros, os Transtornos de Ansiedade (Pânico, Fobias Específicas e Sociais, TOC, Estresse, Ansiedade Generalizada), Transtorno na Alimentação (Anorexia, Bulimia, Obesidade), Transtornos da Aprendizagem, Transtorno de Humor (Depressão, transtorno bipolar) e até mesmo alguns transtornos psicóticos com sintomas muito característicos de uma estrutura histérica já mencionada a séculos por Charcot e Freud.





Longe de querer dar uma resposta última, fico a pensar se não seria o capitalismo, a neurociência, a farmacologia, a psiquiatria e outras áreas da medicina, da psicologia e tantos outros produtores de saber os “mestres” da histeria contemporânea? Quem ela não dá o saber sobre ela para que não termine o amor desse Outro e sua relação com ele?

 (…) é que ela quer que o outro a deseje, mas não é capaz de se apresentar como objeto, quer ser desejada como sujeito ($), e aí reside toda a sua problemática. Por isso, dissemos que a histérica está sempre insatisfeita, ela quer que o outro seja seu amo, mas não se submete a ele, só o coloca no trono para destroná-lo. (Almeida, 2010. pag. 7)

About the Author Elaine R.C. Romero

Psicóloga Clínica,atendimento a adultos crianças e idosos. Palestra e orientação a pais e profissionais. Eterna estudante da área de psicologia e suas vertentes.

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