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Você abre mão de quem você é em um relacionamento?

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Outro dia estava conversando com uma pessoa sobre relacionamentos e surgiu o tema: namoro. Então perguntei a essa pessoa como estava o relacionamento dela, e se era saudável. A resposta foi direta, firme e precisa. Não, não é saudável. Esse relacionamento não é bom. E olha que o relacionamento ainda estava na fase do namoro. E se já nessa fase ele não era saudável, é pra ser repensado.






A conversa continuou e então descobri que a manutenção desse relacionamento se dava por que a pessoa tinha medo de ficar sozinha, ou medo de que alguém não a aceitasse como ela é. Desta forma, preferiu manter um relacionamento insatisfatório para ter a certeza de que teria alguém ao seu lado. Infelizmente essa é a realidade de muitos relacionamentos. Muitas pessoas se mantém presas a relacionamentos ruins por medo de ficarem sozinhas. Mas voltemos um pouco ao início desse processo.
No início de um relacionamento é comum as pessoas ressaltarem o que o parceiro tem de melhor, deixando de lado e não dando importância a características menos favoráveis. Só que muitas pessoas esquecem que estas características também fazem parte do outro. Isso geralmente acontece, pois a parte emocional da mente age mais rápido do que a parte racional, e essa lógica geralmente relega aspectos objetivos das coisas. Mas esse enxergar apenas o lado bom tem uma consequência lógica: o desejo de querer sempre estar perto da outra pessoa.





E isso não é ruim, desde que os sentimentos que as aproximam sejam conscientes. Mas pode acontecer, e não é raro, da pessoa se despersonalizar e “abrir mão” de quem é, só para ser aceita em um relacionamento amoroso, relegando seus interesses e vontades. Isso pode acontecer de forma consciente ou inconsciente, sem que a pessoa se dê conta disso. É como se fosse um expectador de sua própria vida, não tendo desejos e seguindo apenas o que o outro fala. É como a estória da sereiazinha de Hans Christian Anderson. A pequena sereia salva de um naufrágio a vida de um príncipe humano, por quem ela se apaixona. Ele não a vê, mas se encanta por ela. Ela o deixa na praia e volta para o mar, mas não consegue esquecê-lo. Decidida então a procurá-lo, solicita a uma bruxa que transforme sua calda em pernas e a bruxa assim o faz, mas com a seguinte condição: de que ela lhe entregasse sua bela voz. A proposta foi aceita pela sereiazinha. Decidida então a reencontrar o príncipe, partiu em sua procura. Que felicidade, o encontrou, mas logo depois veio o resultado de abandonar uma característica importante: não conseguiu explicar para ele quem era ela, pois já não tinha voz. Assim acontece com muitas pessoas. Perdem suas características, deixam de ser quem são e não conquistam relacionamentos sadios.
Muito comum nessa fase do relacionamento também pode ser explicado por uma expressão frequentemente usada por muitas pessoas: “O amor é cego”. Quem nunca ouviu isso? É mais ou menos isso que acontece no início. Fechamos nossa visão para enxergar tudo e preferimos ficar apenas com a parte boa, mesmo que ela não seja tão boa assim. E não adianta pai, mãe ou algum amigo tentar abrir os olhos da pessoa apaixonada, pois tudo que ela faz é proteger o objeto de sua paixão. Isso acontece porque, para muitas pessoas, ficar sozinhas pode ser considerado sinônimo de fracasso, de derrota, de menos valia pelo fato de não conseguir fazer alguém gostar dela. Acham que não são boas o suficiente para atrair alguém.





Mas o tempo vai passando e com ele, aquelas características que foram deixadas de lado no início, começam a aparecer. Então, o que fazer com isso? Também é comum ouvir o seguinte: Ah, isso ele pode mudar com o tempo! Ou então: Com o tempo melhora. A pessoa pode sim, mudar, pode melhorar, mas o ponto de partida para que isso aconteça é a vontade da pessoa mudar. É algo interno e dificilmente isso acontece quando há uma imposição externa. Portanto, ao falar isso, você pode estar cometendo um grande equívoco, deixando o lado emocional falar mais alto.
Para conseguir lidar com essas questões do dia a dia é preciso investir em desenvolver a inteligência emocional. E não há uma fórmula mágica. O que se precisa é de tempo, aprender quem é você, a ouvir o outro e a opinião de cada um. Isso não é garantia de que o relacionamento vai dar certo, mas pode-se evitar muitos conflitos no futuro quando as pessoas estão conscientes de quem são e quando conseguem enxergar quem é o outro. É também muito importante que a autoestima esteja equilibrada para que as escolhas não sejam baseadas em sentimentos negativos.

About the Author Matheus Coelho

Psicólogo com MBA Gestão de Pessoas e experiência em RH. Mais de 7 anos de experiência em Psicologia Clínica. Atuou como Professor Universitário.

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