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A Verdade por Trás da História Real em que se Baseou o Filme ”Invocação do Mal 2”

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Por: Deborah Hyde

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Algund anos atrás fui convidado para aparecer na ITV para discutir o caso do ”Fantasma” de Enfield. Mas havia duas coisas que fez este estranho. O primeiro foi que o foco do famoso caso de 1977 – Janet Hodgson – estava fazendo uma rara aparição pública. (Ela já apareceu em um documentário ou outro, mas isso não era costumeiro).

Em segundo lugar, me foi pedido pelos produtores para ser muito gentil com ela, para tentar manter em mente que as pessoas podem vir a acreditar no sobrenatural, mesmo que os fantasmas – com toda a probabilidade – não existissem.





A razão para a preocupação dos produtores se tornou evidente no camarim. Janet parecia muito agradável … e muito, muito nervosa. Guy Lyon Playfair, um dos dois principais investigadores do caso e autor de ”Esta casa é assombrada: A Verdadeira História do Fantasma de Enfield”, estava visivelmente preocupado em tentar vender a ideia de uma adaptação dramática de seu livro. E parece que ele conseguiu! O primeiro episódio de um série chamada ”Sky Living The Haunting Enfield” foi ao ar em 2015 e em 2016 foi lançado o filme ”Invocação do mal 2”, também baseado no caso Enfield.

O caso Enfield

Há evidências de uma série de fatores que podem levar pessoas perfeitamente sãs a acreditar que estão presenciando forças sobrenaturais. Guy Lyon Playfair pode ter pensado que “os cientistas estabelecidos vão ignorá-lo completamente e fingir que ele não existe” nos anos 70, mas se isso aconteceu naquela época, o mesmo não acontecerá agora.





O psicólogo Chris French dirige um departamento universitário dedicado à anomalias psicológicas. Tenho participado em algumas experiências assustadoras com o neurocientista Jason Braithwaite; as psicólogas Caroline Watt e Susan Blackmore são membros fundadores da unidade Koestler de Parapsicologia e também ajudaram a esclarecer a realidade por trás de muitos fenômenos estranhos, desde experiências ”fora do corpo” até telepatia.

Eles são a ponta de um iceberg. Então, o que um cientista nos diz sobre os fenômenos Enfield? O ‘fantasma’ irritado com a família de uma mãe e seus três filhos (o outro filho estava na escola) por dois anos entre 1977 e 1979, e parecia concentrar-se em torno das duas irmãs púberes: Margaret e (principalmente) Janet.

A primeira coisa que precisamos observar é que as ocorrências não aconteceram em circunstâncias controladas. As pessoas freqüentemente veem o que esperam ver, seus sentidos são organizados e moldados por suas experiências e crenças anteriores, num processo chamado de “totalização”. Houve um caso particularmente interessante de percepções alimentadas por expectativas relatadas por um botânico francês, Joseph Pitton de Tournefort, no século XVII, em conexão com um suposto “vampiro”.





Lyon Playfair apontou que, eventualmente, “…toda a família… tinha visões ou aparições de rostos nas janelas, figuras sombrias sobre as escadas…”. Isto não surpreende um psicólogo: um experimento feito por Richard Wiseman em Hampton Court concluiu que os crentes relatavam significativamente mais experiências anormais que os descrentes, e eram significativamente mais propensos a indicar que estes eventos tinham sido causados por um fantasma.

Na verdade, era difícil imaginar como uma coleta de dados poderia ser mais rígida nesse caso, visto que o local era uma casa com uma mãe, compreensivelmente, protetora. “A senhora Harper deixou muito claro para Grosse [o outro investigador] e eu… que, enquanto nós… éramos bem-vindos a qualquer momento, ela não queria que outras pessoas entrassem em sua casa novamente”, escreveu Playfair, após a visita de um grupo de céticos que acreditavam que as meninas estavam ”aprontando uma peça”.

Além disso, a expectativa pode, inadvertidamente, originar uma situação nos participantes. Percebo vários exemplos deste fenômeno no caso Enfield, incluindo o momento (5:16), onde Janet diz que “Uma noite Mr Grosse estava falando sobre isso… ele disse: ‘Tudo o que precisamos agora é que as vozes falem”. As vozes apareceram pouco tempo depois.

Quando Graham Morris do Daily Mirror disse às meninas que fantasmas causavam explosões de fogo, a entidade de Enfield passou a ter ”mãos de fogo”. Os Legos e bolas de gude que o ‘fantasma’ gostava de arremessar pareciam se materializar do nada. No entanto – arriscando uma tautologia – não vemos as coisas até que a enxerguemos; isso é chamado de cegueira por desatenção.

Não temos capacidade de prestar atenção em tudo o que acontece o tempo todo e, muitas vezes, não percebemos quando as coisas foram colocadas ou retiradas. Não é estranho que as testemunhas tenham ficado surpresas ao ver os objetos aparecem em lugar quando acreditavam tê-los visto em outro. Um vizinho, Sra Burcombe, que viu uma haste de plástico se “materializar” na frente de seus olhos, provavelmente estava apenas experimentando a súbita consciência dela.

Lyon Playfair era, a julgar pela nossa conversa no This Morning, resistente à ideia de que ele poderia ter sido enganado pelas crianças. Mas, como eu o lembrei naquele dia, Elsie Wright e Frances Griffiths – os criadores de ”Fadas de Cottingley” na década de 1920 – puxaram a lã sob os olhos de Sir Arthur Conan Doyle, criador do poster-boy do raciocínio dedutivo, Sherlock Holmes.

Janet parece ter sido, de longe, o foco mais forte dos eventos em Enfield. Lyon Playfair pensava que “a Coisa usa as percepções sensoriais de Janet. Se ela não sabe de algo, a “Coisa” também não sabe” e ”ela estava desenvolvendo uma assustadora capacidade de precognição” em relação às suas atividades. Sua mãe viu lápis e pedaços de Lego aparecerem e observou que “eles continuavam aparecendo do nada, enquando Janet estivesse na sala”.

Provavelmente foi a partir de um artigo de revista encontrado na casa que Janet ouviu falar de Matthew Manning – outra criança que ficou conhecida por, supostamente, ser possuída por um fantasma. A mãe de Manning contava no artigo da revista que o primeiro evento estranho que ocorrera em sua casa foi o desaparecimento de um bule de chá, e este foi também um dos primeiros incidentes na casa de Janet.

Certa vez Janet se queixou de que “estava sendo sufocada – alguém estava colocando a mão sobre o seu nariz e boca para impedi-la de respirar” e que “era um homem velho sentado na poltrona”. Qualquer pessoa que já tenha sofrido uma paralisia do sono – inclusive eu – irá reconhecer as dificuldades respiratórias e as alucinações que acompanham o inofensivo e transitório ‘despertar’ em uma paralisia do sono. Ela experimentou outra manifestação deste mesmo fenômeno quando estava na cama e “De repente senti algo me puxar – pelos braços – para fora da cama”. Não é um fenômeno muito raro, em média 15 e 40% das pessoas (dependendo da pergunta utilizada) que já experienciou uma paralisia do sono, descreveu uma sensação semelhante.

1Em suma, Janet e sua família estavam passando por uma longa fase difícil. Ela era, em todos os aspectos, uma criança inteligente e enérgica. Seu pai e sua mãe eram divorciados (incomum naqueles dias), e não mantinham contato. A senhora Harper havia relatado na época que a situação com seu ex-marido e seu novo parceiro “teve um efeito angustiante sobre as crianças”.

Incrivelmente “a televisão … foi quase o único objeto na casa que permaneceu intocado pelo ‘fantasma’ durante todo o caso”. Eu tenho a mesma idade de Janet e me lembro bem da importância daquela caixa na sala de estar em uma época que iPads e X Boxes ainda não existiam.

Vale a pena lembrar que muitas pessoas que visitaram a casa em Enfield não acreditaram na explicação do ‘fantasma’. As vozes roucas de Janet foram elucidadas pelo ventríloquo Ray Alan como um truque vocal explicável. Bill, uma das vozes de Janet, tinha o “hábito de mudar de assunto de repente… um hábito que Janet também tinha”, observou Lyon Playfair.

Vários psiquiatras e psicólogos nem deram a importância de uma explicação plausível na época, acreditaram que a coisa toda iria parar se Grosse e Playfair acabassem ficando sozinhos com a explicação ‘fantasma’.

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Maurice segurando Janet em um suposto ”transe”

Pessoalmente, eu acharia plausível se alguém sugerisse que duas meninas brilhantes, sentindo-se abandonadas pelo pai e, ao mesmo tempo, como o foco do desentendimento entre o pai e o padastro (foco que, muito provavelmente, evaporou-se quando os ”fenômenos estranhos” começaram a ocorrer) poderia ter sido o motivo bom o suficiente para manifestar um ‘fantasma’. Maurice Grosse tinha um grande interesse por assuntos ‘sobrenaturais’ e também tinha sofrido uma perda trágica recente, de sua filha (também chamada Janet), que havia falecido em um acidente de motocicleta.

Mas então o que você deve fazer se receber um fantasma em sua casa? Lyon Playfair escreveu: “Cramer observou que fantasmas nunca atacam os ateus, e as crenças das famílias envolvidas parecem influenciar o curso dos acontecimentos”.

Fonte: TheGuardian traduzido e adaptado por Psiconlinews

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