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Controle coercitivo: Quando o controle no relacionamento é psicológico

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O ex-namorado de Lisa Fonte nunca a agrediu fisicamente ou puxou um fio do seu cabelo. No entanto, ele invadiu seu notebook e instalou um programa que controlava a câmera do aparelho, dessa forma ele sutilmente conseguiu afastá-la de seus amigos e familiares.






Mas mesmo assim, ela não achava que era vítima de violência doméstica. “Eu não conseguia entender essa relação, só sabia que não era um bom relacionamento”, disse Lisa, professora da Universidade de Massachucetts. Foi só depois de ler alguns artigos sobre abuso emocional que ela identificou o nome daquilo que experimentava em sua relação: controle coercitivo, um padrão de comportamento que algumas pessoas – geralmente homens – empregam para dominar suas parceiras. O controle coercitivo é uma estratégia contínua e multifacetada cheia de táticas que incluem manipulação, humilhação, isolamento, abuso financeiro, perseguição, gaslighting e abuso físico ou sexual.





Lisa é autora do livro chamado “Correntes invisíveis: Como superar o controle coercitivo em um relacionamento íntimo”. De acordo com ela, existe vários graus de controle coercitivo. “Uma mulher me contou que seu marido não a deixava dormir de costas, queria que ela usasse as roupas que ele escolhesse, que ela arrumasse o cabelo de tal forma e até mesmo tomasse banho de uma maneira determinada”. Embora o termo “controle coercitivo” não seja ainda muito difundido, o conceito de abuso emocional em relacionamentos está ganhando espaço.

Em dezembro do ano passado a Inglaterra e o País de Gales expandiram a definição de violência doméstica e incluíram “comportamento coercivo e controlador em um relacionamento íntimo ou familiar”, dessa forma esse tipo de abuso se tornou crime passível de punição com pena máxima de 5 anos. “Graças a esta nova lei muitos atos que haviam sido tratados como delitos de baixo nível ou nem eram considerados infracções, agora são condutas criminais graves”, disse Evan Stark, assistente social forense e professor emérito na Universidade Rutgers, cujo trabalho ajudou a formar a nova lei na Inglaterra e no País de Gales.





Em cerca de 20% dos casos de violência doméstica não há danos corporais, e a maioria dos países possuem leis que protegem a mulher apenas em casos de violência física. Connie Beck, coautor de um estudo feito em 2010 pelo Jornal de violência Interpessoal, disse que “Quando você controla as liberdades básicas de uma pessoa, como por exemplo, quem ela pode ver, onde ela pode ir, o que ela pode fazer, etc. Não há necessidade de partir para a violência física, no entanto, quando a vítima não cumpre com o que o controlador ordena, a violência ocorre”.

Para uma vítima de controle coercitivo uma ameaça pode ser mal interpretada como prova de amor, principalmente nos primeiros estágios do relacionamento ou quando a vítima se encontra em um estado vulnerável. Lisa tinha 40 anos e havia se divorciado recentemente quando conheceu seu ex-namorado. Ele era encantador e charmoso, e embora ela soubesse que ele era um pouco obsessivo, ela acabou negligenciando isso, mesmo tendo um Ph.D em psicologia especializada em abuso infantil e violência contra mulheres. “Para uma pessoa que está a procura de amor pode ser maravilhoso conhecer alguém que queira monopolizar o seu tempo”, admitiu ela.

Rachel G. tem 46 anos, três filhos e mora nos arredores da cidade de Boston(EUA). No seu relacionamento a manipulação chegou ao extremo. Seu ex-marido a obrigava a compartilhar até a escova de dentes, não deixava que ela fechasse a porta do banheiro em hipótese alguma. Ele montou um sistema de câmeras ao redor da casa, colocou um GPS no seu carro para rastrear seus movimentos. Às vezes ele aparecia em seu trabalho sem aviso prévio, só para saber se ela realmente estava lá. “Ele sempre arranjava a desculpa de que precisava saber onde eu estava caso as crianças precisassem de mim ou dizia que estava com saudades e resolvia aparecer, mas isso era apenas sua maneira de controlar o meu comportamento”. Ela estava em um relacionamento miserável e ficou presa a ele durante 18 anos. Rachel receava em sair do relacionamento porque já tinha três filhos e ele tinha convencido-a de que ela seria infeliz em qualquer outro lugar. “Eu era uma esposa má, não cozinhava bem, era uma mãe negligente, priorizava meu trabalho acima de tudo, a minha família gostava mais dele do que de mim, nossos amigos gostavam mais dele do que de mim. Quanto mais ruim eu me sentia sobre mim mesma, mais eu internalizava a visão dele sobre mim e achava que era assim que o mundo funcionava, dessa forma me tornava cada vez mais submissa”.

No final foi ele, e não ela, quem pediu o divórcio, mas isso só aconteceu depois que ele descobriu que ela tinha um caso com outra pessoa. Ela não se sente nada orgulhosa disso, mas é grata porque isso a tirou do seu casamento infeliz. “Eu nunca teria me separado se ele não houvesse pedido”, disse ela. “Eu estava com muito medo para fazer qualquer coisa”. Desde então ela vem tentando restabelecer ligações com os membros da família e amigos.

Lisa, depois de quatro anos de relacionamento, finalmente deixou seu parceiro. A decisão veio depois que ela passou duas semanas longe dele e percebeu o quão degradante havia se tornado”. Recebi vários telefonemas e e-mails dele, mas foi um alívio ir dormir e me acordar sem ter que dar satisfação alguma para ninguém”, disse ela. “Eu consegui recuperar o sentido de que era um pessoa separada, com minhas próprias opiniões e perspectivas.”

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