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Por que às vezes ignoramos o óbvio? A Psicologia da cegueira voluntária

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EF Schumacher elegantemente escreveu em seu livro: “Tudo pode ser visto diretamente, exceto através dos olhos pelo qual vemos”. O que obscurece essas incógnitas transformadoras da visão são os nossos preconceitos inconscientes que mesmo bem intencionados, podem nos iludir.





Na obra “Cegueira voluntária: Por que ignoramos o óbvio mesmo que estejamos em risco”, a empreendedora e autora Margaret Hefferman examina os mecanismos cognitivos e emocionais pelos quais permanecemos “cegos” em situações nas quais deveríamos saber da verdade e agir, mas em vez disso fechamos os olhos para a verdade porque isso nos faz sentirmos melhor. Esse processo, na maioria das vezes, ocorre inconscientemente, no entanto, existem casos em que sabemos conscientemente a verdade e preferimos escondê-la de nós mesmos. Margaret argumenta que “quanto mais nos concentramos, mais deixaremos passar alguma coisa”. A atenção é um discriminador intencional e sem remorso.





Segundo Margaret o conceito de “cegueira voluntária” vem da lei e provém de uma legislatura do séc XIX. Esse conceito abrange a ideia contra-intuitiva de que você é o responsável pela causa e efeito, pois “se você tinha os recursos para saber o que estava acontecendo e deveria saber o que estava acontecendo, mas mesmo assim preferiu fechar os olhos para a verdade, a culpa é sua”. Margaret diz que esse conceito engloba várias esferas de nossas vidas e felizmente somos capazes de fazer algo a respeito – como indivíduos, organizações ou nação – precisamos abrir bem os olhos antes de entrar em situações perigosas que no final irão gerar aquela exclamação inevitável: Como eu pude ser tão cego?

Margaret explora o “álibi amigável” que nós fabricamos a fim de manter nossa própria inércia; para ela, esse é “o tiro pela culatra” e explica porquê é tão difícil mudar nossas mentes. Ela escreve no livro:

Individual ou coletiva, a cegueira voluntária tem várias causas. É um fenômeno humano ao qual todos nós sucumbiremos uma hora ou outra, em proporções maiores ou menores. Não podemos perceber e saber tudo, pois os limites cognitivos de nosso cérebro simplesmente não vão permitir que isso aconteça. Isso significa que temos que filtrar ou editar aquilo que recebemos ou aquilo que escolhemos deixar passar. Nós absorvemos as informações que nos trazem bem-estar, enquanto convenientemente filtramos tudo aquilo que possa perturbar os nossos egos frágeis. É uma verdade incontestável a máxima que diz que o amor é cego, mas quanto podemos esconder de nós mesmos? As ideologias muitas vezes mascaram aquilo que é muitas vezes inaceitável e óbvio. É um impulso inconsciente que protege a nossa inércia, o medo do conflito e o medo da mudança geralmente nos mantém dessa forma.

Uma das mais sutis manifestações da nossa cegueira voluntária está no companheiro que escolhemos. Os dados de mais  de 25 milhões de questionários vindos de sites de namoro online revelam que “nos casamos e vivemos com pessoas muito parecidas conosco”. Segundo Margaret, essa é uma descoberta que quase sempre incomoda as pessoas:

Todos queremos sentir que fizemos nossas próprias escolhas, que somos espíritos livres e temos uma variedade a mais de gostos que os dados revelam. Não gostamos de saber que nos fascinamos por pessoas que são como nós, ninguém gostaria de se ver preso dentro de sua própria identidade, no entanto, os dados provam o contrário […] gostamos de pessoas que são parecidas conosco pelo simples fato de que elas são familiares, já sabemos como lidar com elas, dessa forma nos sentimos muito mais seguros. Esses sentimentos de familiaridade e segurança fazem com que gostemos mais de nós mesmos. Sentimos que pertencemos um ao outro, assim, nossa autoestima sobe e nos sentimos felizes. O ser humano gosta de se sentir bem sobre si mesmo, e para que se sinta seguro, ele se cerca pelo que lhe é familiar, isso satisfaz suas necessidades de segurança e bem-estar de forma eficaz.





Nossas mentes funcionam da mesma forma que os algorítimos dos sites de namoro, mesmo quando procuramos por algo novo, na verdade estamos em busca daquilo que nos é familiar. Isso é muito comum na mídia, quando pegamos um jornal para ler, por exemplo, buscamos por aquilo que nos é familiar. Tudo que foge desse campo de familiaridade também foge à nossa visão.

Surpreendentemente esses pontos cegos acabam tendo uma base física em nossos cérebros. Margaret cita o neurologista Robert Burton, que estuda a base biológica que está por trás da razão pela qual nossos cérebros tendem a rejeitar informações que poderiam ampliar as nossas perspectivas:

As redes neurais não fornecem respostas diretas. Existem vários emaranhados ao longo do caminho. Se um flash de luz estiver tentando chegar à sua consciência, e se houver convergências “favoráveis” o suficiente, então você conseguirá vê-lo, caso contrário você não ”enxergará” essa informação. 

Robert ilustra isso com uma bela metáfora:

Imagine a formação gradual de um leito de rio. O fluxo inicial da água pode ser completamente aleatório – não há rotas preferenciais no início. Mas uma vez  que um riacho é formado, a água é mais propensa a seguir o caminho recém criado, que oferece menor resistência. Conforme o fluxo de água segue, a água continua e o riacho se aprofunda tornando-se um rio.

Ao longo de nossas vidas, nosso acúmulo de experiências, nossas relações e ideias moldam o leito do rio de nossa mente e a água começa a fluir com cada vez menos resistência, o que por sua vez produz uma sensação de segurança que só aprofunda a leito do rio. Margaret contempla as repercussões:

Nossa cegueira cresce a partir das pequenas decisões diárias, elas nos incorporam mais confortavelmente dentro de nossos pensamentos e valores. O mais assustador sobre este processo é que como vemos cada vez menos, sentimos cada vez mais conforto e segurança. Pensamos que o horizonte está se expandindo, mesmo que na realidade a paisagem esteja encolhendo.

Dificilmente encontraremos uma cegueira mais implacável que a do amor. Aquele velho ditado que diz que “o amor é cego” tem fortes raízes psicológicas:

Quando amamos alguém, vemos essa pessoa como mais inteligente, mais espirituosa, mais bonita e mais forte do que ela realmente é. Para nós, um pai, um parceiro ou um filho tem infinitamente mais talento, potencial e força do que para os outros. Mas é graças a esse amor que devemos a nossa sobrevivência, pois sem ele morreríamos quando bebês, se nossa mãe não nos cuidasse, não sobreviveríamos. Will Champion diz que “quando crescemos cercados de amor, nos sentimos mais seguros, por isso confiamos que os outros acreditem em nós. Essa confiança de que somos amados é um elemento essencial para a formação da nossa identidade e autoconfiança. Em parte acreditamos em nós mesmos porque os outros acreditam em nós e, querendo ou não, dependemos firmemente dessa crença. Como seres humanos tendemos a encontrar e proteger relacionamentos que nos façam sentir seguros. Com o amor acontece a mesma coisa, no entanto, o amor é baseado na ilusão. Há várias evidências que provam que todo o tipo de amor é baseado na ilusão, mas muitas vezes é uma ilusão necessária.

Nosso senso de identidade depende muito de como funciona o nosso amor integral, por isso, é importante se lembrar de que “Quem somos depende em grande parte de quem amamos”, somos contra qualquer coisa que ameace esse senso, por isso quando alguém fala mal de alguém que amamos, elencamos as suas virtudes numa tentativa de defesa.

Margaret diz que o exemplo mais angustiante desta cegueira psicológica é encontrado em famílias danificadas pelo abuso infantil. Cerca de 700.000 casos de abuso infantil são relatados todos os anos – esta é uma das formas de violência na sociedade que geralmente não é denunciada por uma série de razões, no entanto, é impossível imaginar que muitas famílias simplesmente fecham os olhos para essa realidade que acontece dentro de suas próprias casas. Margaret diz que reconhecer uma verdade tão devastadora requer que os pais ou tutores questionem sua própria realidade, dessa forma muitos deles acham uma fuga em sua “cegueira voluntária.”

O aprendizado mais importante que emergiu a partir deste estudo é o reconhecimento de que continuamos a mudar até o fim de nossas vias. Cada experiência, cada novo aprendizado, cada relacionamento ou reavaliação pode alterar a forma como nossa mente funciona. Em seu trabalho sobre o genoma humano, o ganhador do prêmio Nobel Sydney Brenner, nos lembra que mesmo gêmeos idênticos têm diferentes experiências em ambientes iguais, e que isso os torna seres fundamentalmente diferentes. Gêmeos idênticos desenvolvem sistemas imunitários diferentes. A prática mental por si só pode alterar a forma como nossos cérebros funcionam. A plasticidade e capacidade de resposta das nossas mentes é o que nos faz únicos… Não somos autômatos servindo a um programa de computador implantado em nossos cérebros, portanto a nossa capacidade de mudança nunca deve ser subestimada.

About the Author Raquel Lopes

Tradutora da Psiconlinews, estudante de Relações Internacionais, gosta de literatura, psicologia e viajar por aí.

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