Será que valeria a pena ter uma mente sem as lembranças dos momentos ruins?

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Alguma vez você já quis apagar uma memória dolorosa? Talvez você já tenha visto o filme “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004)”, sem dúvida alguma esse é um dos filmes mais excepcionais do escritor Charlie Kaufman. A premissa do filme é sobre o que aconteceria se as pessoas pudessem apagar memórias seletivas a fim de eliminar o estresse e o sofrimento que elas causam.





Eu simplesmente amei o filme, achei engraçado e ao mesmo tempo profundamente comovente. O que os seus protagonistas (Jim Carrey e Kate Winslet) percebem é que eles não apenas se apegam às suas memórias mais difíceis, como também tendem a repetir os mesmos erros do passado, além disso também se esquecem das lições de vida que acreditavam ter aprendido com aquelas experiências.





Acredite ou não, os cientistas descobriram uma droga que potencialmente é capaz de apagar memórias profundamente dolorosas, e até mesmo eventos traumáticos do passado. Como Richard A. Friedman escreveu no New York Times:

“Quem entre nós não gostaria de deixar de sentir ansiedade ou medo? Fobias, ataques de pânico, distúrbios pós-traumáticos são extremamente comuns hoje em dia: Cerca de 29 por cento dos adultos americanos irão sofrer de ansiedade em algum momento de suas vidas “. 

Bem, pode haver uma cura para isso. E seu nome é propranolol.

Estudos mostram que se uma pessoa tem uma fobia como, por exemplo, medo de aranhas, e se essa pessoa tomar esta droga no momento em que estiver exposta a este inseto, o medo simplesmente desaparecerá. Friedman explica o processo:

“O Propranolol bloqueia os efeitos da noradrenalina no cérebro. Este produto químico, que é semelhante à adrenalina, melhora a aprendizagem, e ao bloquear os efeitos da noradrenalina, perturba a forma que a memória será rearmazenada no cérebro após ter sido reativada, um processo chamado de reconsolidação.”

As coisas ficam muito mais complicadas no filme Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, no qual ambos os protagonistas passam por um tratamento cerebral e todas as noites as memória de seu relacionamento falido são apagadas. O problema é que o tratamento funciona e os dois acabam se arrependendo da decisão de ter apagado as suas lembranças e lutam para recuperá-las. Apesar do sofrimento causado pelo rompimento, nenhum dos dois quer se livrar das memórias do seu relacionamento íntimo, podemos chamar isso de amor.





O medo de aranhas parece ser relativamente menor do que o sofrimento causado por uma separação. No entanto, pense sobre a epidemia de transtorno de estresse pós-traumático que invadiu a sociedade moderna nos últimos anos, não apenas nos soldados que voltam da guerra, mas também nas mulheres que sofreram de abuso sexual, vítimas de acidentes, etc.

Ficamos hiper-sensibilizados ao passar por algum trauma, além dos efeitos incapacitantes. Ouvimos falar de pessoas que são perturbadas todas as noites por pesadelos, sofrem ataques de pânico, depressão ou impulsos suicidas. Esses casos podem nos ajudar a aprofundar mais a nossa compreensão dos processos complexos (e mal compreendidos) da memória.

A neurociência contemporânea afirma que toda vez que revivemos uma memória pessoal, a revemos a partir das circunstâncias ou do contexto da qual ela foi recuperada. Digamos que você tenha uma música especial que o lembra de um momento marcante do seu passado, no instante em que se lembrar dela, essa memória acabará sendo misturada com o gatilho que provocou o seu surgimento, como resultado disso, a memória que será rearmazenada em sua memória acabará com vestígios do que estava acontecendo no momento em que ela foi engatilhada. O presente, como resultado, continua a rever o passado.  Isto não é uma questão de escolha pessoal, é uma função cerebral que acontece independentemente da vontade consciente.

Eu nunca tentei esta técnica antes, mas posso imaginar como é reviver uma experiência traumática (tal como um estupro) em um ambiente controlado, no qual você pode invocar uma resposta diferente do terror e do medo, fazendo com que você crie novas associações sobre o que aconteceu. Dessa forma você seria capaz de silenciar os efeitos traumáticos da memória primária que causou o trauma, mas creio que apesar dessa notícia ser maravilhosa, ela não deve ser o suficiente. Friedman relata que a experiência deu certo com cerca de metade dos pacientes participantes. Algumas pessoas chegaram a reviver o passado de forma tão vívida que parecia uma repetição excruciante do trauma original.

Sem dúvida alguma essa novidade é surpreendente, mas será que você gostaria de apagar todas as memórias dolorosas do seu passado, inclusive as dos seus relacionamentos? Assim como os amantes do filme Mente Sem Lembranças, se você apagasse as memórias que mais o atormentam, elas seriam a maior perda emocional da sua vida. Será que você realmente gostaria de apagá-las?

Eu não me importaria de tomar alguma droga que melhorasse a minha saúde ou longevidade, até mesmo o meu bem-estar emocional (por exemplo, pressão alta, enxaqueca, ansiedade ou depressão). Mas não gosto da ideia de perder minha memória pessoal, como acontece com o Alzheimer e a demência. Creio que para mim as memórias mais difíceis são as que continuam me puxando para o futuro, pois experimentar a decepção e o fracasso, mesmo nas relações pessoais, nos levam a desenvolver uma compreensão mais complexa de nós mesmos e daqueles que nos cercam, dessa forma descobrimos recursos em nós mesmos que sequer imaginávamos que existissem.

Por exemplo: Certa vez quando eu perdi meu emprego, fiquei tão estressada que exigi um encontro com o reitor da faculdade; claro que isso não salvou o meu emprego, mas me ensinou a ser mais assertiva. Hoje em dia eu valorizo essa memória tanto quanto as memórias que me revelaram o quanto eu fracassei em alguns relacionamentos e amizades. De que outra forma eu iria aprender o que é importante na vida senão errando? Eu não procuro pelo consolo de uma mente sem lembranças, não procuro esquecer os maiores desafios da minha vida, pois foi graças a eles que acabei sofrendo as minhas maiores transformações.

E você? Tomaria essa droga? Por quais motivos? 

Fonte: PsychologyToday traduzido e adaptado por Psiconlinews

 

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