Depressão: A doença sob a perspectiva do doente

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Quantas vezes nos pegamos pesquisando a todo vapor sobre esse assunto que vem sendo considerado como o mal do século? E eu não estou me referindo àqueles que de alguma forma se interessam pelo tema em prol de estudos aprofundados, mas principalmente àqueles que realmente sofrem com essa doença crônica.


Existem inúmeros sites e blogs que esclarecem sobre o assunto. Porém entender a depressão nunca será totalmente possível para aqueles que não sofrem com ela. Porque só é possível compreender a dor por completo, quando você passa a senti-la. Por mais que um profissional estude anos e anos para entender de fato tudo aquilo que permeia os sentimentos e pensamentos de uma pessoa que sofre a doença na pele, ele nunca vai saber exatamente como é tê-la se de fato não a ter um dia. E creio que é nesse ponto que o profissional se faz tão importante. O Psicólogo se interessa por sua vida de uma maneira diferente. Ele deseja ajudá-lo. Ele te ensina a encontrar as respostas que você mesmo nunca pensou que existira. Existe grande diferença entre um desabafo com um profissional e um desabafo com um amigo. Ambos são importantes, porém o profissional é indispensável.
Visto que existem várias definições sobre a Depressão, que inclusive são muito úteis e esclarecedoras, acredito que existe a necessidade de conhecê-la sob o ponto de vista de um verdadeiro depressivo. Não desejo rotular as pessoas que sofrem com a doença como depressivas, pois elas só se encontram nesse estado quando de fato estão em crise, porém para que seja mais fácil compreender os momentos em que me refiro a uma pessoa “saudável” e uma pessoa com depressão, estarei referindo-a como um indivíduo depressivo.
Por que conhecer a doença através de um verdadeiro doente? Por que é possível conhecer novas perspectivas sobre o assunto, é possível conhecer os verdadeiros sentimentos de alguém que a carrega nos ombros e assim fica muito mais interessante adquirir novos conhecimentos sobre o tema. Depressão é algo complexo e apresenta distintos sintomas. Cada indivíduo depressivo apresentará diversas formas de sintomas. Uns mais que os outros e isso também ocorre pelo fato de que a doença está dividida em diversos estágios. Como em qualquer doença, se descoberta a tempo tem mais chances de cura. Claro que vale enfatizar que a Depressão, por ser uma doença crônica, não possui cura, apenas tratamento. Porém, se ela for identificada e tratada o quanto antes, impede-se que ela se desenvolva no futuro. Mas esse não foi o meu caso. Você lerá a partir de agora, os sintomas e comportamentos de um ser humano que possui Depressão Severa. Desde seu início até o seu desenvolvimento. Espero que a visão de um depressivo o ajude a entender melhor sobre o tema, mostrando-lhe que Depressão não é frescura. Doença alguma é frescura.


Para começo de conversa convém esclarecermos que a Depressão surge a partir de eventos que ocorrem na vida de um ser humano. Eventos esses que são demasiadamente marcantes, no sentido negativo da palavra, e que acabam de alguma forma provocando traumas no indivíduo. A morte de um ente querido, o término de um relacionamento, traição, Bullying, Preconceito, Abuso Sexual e entre muitos outros fatores podem provocar o surgimento dessa temida doença. Além disso, fatores genéticos também contribuem bastante. Quando uma pessoa possui históricos de Depressão na família, consequentemente ela acaba carregando uma maior chance de adquirir a doença ao longo do tempo. Quem tem familiares depressivos não precisam ter medo, pois talvez nunca desenvolvam a doença. Contudo, vale ressaltar que existe a chance e ela passa a ser maior quando já apresenta um histórico genético.
Particularmente estou inclusa nos dois parâmetros. 1. Eventos traumáticos na infância contribuíram para o surgimento da minha Depressão e 2. Existem diversos históricos sobre a doença, tanto por parte da família paterna como da família materna, incluindo suicídio.
Desde muito nova tenho a doença. Inicialmente ela se caracterizava por isolamento e fobia social. Não tinha interesse em fazer novas amizades. Não tinha interesse por me relacionar com pessoas. Tinha medo e automaticamente me isolava de uma forma anormal para uma criança de sete anos. Por um dado momento fui levada ao psicólogo, entretanto, como eu não demonstrei interesse nenhum em conversar com o profissional, meus pais desistiram do atendimento e nunca mais tocaram no assunto. Surge aí, o primeiro erro. Não culpo meus pais, porém admito que era necessário uma maior preocupação e insistência da parte deles. Naquela época a Depressão ainda era um TABU e não tinha a mesma atenção que possui hoje, por parte da sociedade como um todo. Ainda era difícil chegar a pensar que uma criança de apenas sete anos poderia ter uma doença como essa. É por isso que não culpo ninguém, pois ainda hoje sofremos preconceito quando dizemos que temos Depressão. Ainda sofremos muito até sermos diagnosticados com a doença.
Como não tive o tratamento nessa fase, a minha doença progrediu aos poucos. Houve uma fase em que eu odiava os seres humanos. Eu não tinha amor algum pelas pessoas. Eu as odiava. Amava loucamente todos os animais IRRACIONAIS. O ser humano para mim era mais do que nada. Claro que esses sintomas surgiram devido aos eventos que eu sofri na infância. Não quer dizer que alguém com início de Depressão apresentará o mesmo comportamento, porém o isolamento é sim uma característica bastante comum de uma pessoa com Depressão.


Passei muito anos com problemas para me relacionar com as pessoas. Mas o momento mais importante e grave da minha doença surgiu quando eu completei meus treze anos de idade. Passei a ter pensamentos que antes eu nunca havia tido: Morte. Uma jovem pré-adolescente com vontade de morrer. Era esse meu sentimento. Eu queria sumir do mundo. Apenas isso. Enquanto meus amigos se preocupavam em arranjar namorados (as), eu simplesmente questionava a minha vida toda e orava a Deus para que me levasse, porque eu sentia uma dor que não aguentava mais. E o pior de tudo: acreditava que o problema era eu. Em nenhuma circunstância eu cheguei a deduzir que tinha depressão. E eu me culpava por ser diferente e chorava todas as noites.
Com a depressão você passa a perder interesse por tudo aquilo que você gostava. Se você amava sair, passa a ficar em casa. Se amava conversar, passa a ficar mais calada. Se amava filmes, deixa de querer assisti-los. Enfim, de uma maneira geral, o mundo perde o colorido. Você perde o paladar, o tato. Você perde os sentidos, por que nada mais tem graça. Durante minha pré-adolescência toda tive que lidar com os sentimentos depressivos de minha própria mãe. Como eu não a entendia isso me afetava demasiadamente. E eu me sentia cada vez pior.
Com quatorze anos eu tive um novo estágio de depressão. Passei quase uma semana sem ingerir alimentos. Emagreci demais e na época eu achei que tinha chegado no fundo do poço. Mas eu estava redondamente enganada.
A depressão é basicamente composta por pensamentos negativos acerca da vida. Você passa a se indagar mais sobre qual o sentido disso tudo. Chega um dado momento em que você já não vê mais motivo algum para estar viva, e é nesse momento que você passa a desenvolver os pensamentos suicidas. Meus pensamentos suicidas surgiram aos treze anos. Primeiramente eu desejava morrer. E de tanto querer isso, eu passei a pensar em formas de tirar a minha própria vida.
Como boa entendedora do assunto, posso afirmar que esse é o momento mais crítico da doença. Inicialmente você quer morrer, mas não quer sentir dor. E tem medo disso. Por muito tempo você adia. E adia. E adia. Mas um dia, a sua doença se torna tão mais forte que você, que te dá uma coragem quem nem mesmo você imaginava que existia. Está aí porque eu ressalto tanto a importância de se desabafar com alguém de confiança e sobretudo com um profissional. Se você está triste, mas há um tempo relativamente longo, fique em alerta. Se a sua tristeza vem acompanhada de sentimentos negativos, tais como a morte, não tenha vergonha de procurar ajuda. Os pensamentos de uma pessoa com Depressão evoluem com o tempo. Um dia você quer morrer. No outro você quer se matar. No outro você pensa em formas menos dolorosas para isso. No outro você nem liga mais se vai doer ou não. E no outro você planeja tudo nos mínimos detalhes. E no outro você consome o suicídio. Se você vai sair ileso ou se vai conseguir de fato o que tanto deseja, só Deus sabe.
Depressão não é brincadeira. A mente traz diversas armadilhas. E se não tratarmos os nossos pensamentos ruins, pode ter certeza que a situação só irá piorar.
Quando passei a pensar em formas de tentativas de suicídio, como eu já disse, me preocupava muito em não sentir dor alguma. Eu lia muito sobre isso. Pesquisava métodos e métodos. Queria algo letal e indolor. As mulheres no geral sentem muito isso quando estão em depressão. Enquanto que as mulheres têm uma propensão maior a ter a doença, o homem apresenta propensão maior a de fato realizar o suicídio quando possuem a doença. Contudo, quanto mais eu pesquisava, menos encontrava métodos indolores. Nessa época eu pensava muito em venenos, overdose por remédios, intoxicação com produtos inflamáveis e tudo aquilo que não envolvesse sangue. Eu cheguei a tomar remédios, porém numa quantidade muito pequena. O meu desconhecimento fez com que eu chegasse a pensar que morreria se tomasse alguns. Porém, felizmente nada aconteceu comigo. Num segundo momento eu misturei remédios com produtos de limpeza. Pode parecer um tanto tola essa minha atitude, porém eu estava numa crise muito difícil e num momento de desespero eu quis acabar com tudo, sem mesmo saber que novamente nada daquilo daria certo.
Eu cheguei num estágio da doença em que minhas crises se tornaram algo insuportável. Quem realmente esteve comigo durante um desses momentos, sabe o quanto é difícil e o quanto é doloroso. Convencer alguém que tem depressão e que está em crise, de que a vida é boa, é uma missão quase impossível. Nesse momento nós (depressivos) não raciocinamos bem. Nós ficamos fora de controle. Não conseguimos entender nada além do nosso próprio desejo de morte. Nos tornamos completos egoístas, pois só pensamos em nos livrar da dor. E é aí que eu digo que o Depressivo não quer morrer, ele apenas quer se livrar da dor. As pessoas que carregam essa doença nas costas são as pessoas que mais amam a vida. Elas adoram viver, mas nem todas elas conseguem enxergar isso. A dor de um depressivo é inexplicável. O peito dói, falta o ar. O nó na garganta é constante e tem momentos em que parece que vamos perder totalmente o controle. É uma dor terrível. Dói mais do que uma ferida na pele.
Depois que a minha depressão evoluiu para pensamentos e tentativas fracassadas de suicídio, fica difícil acreditar que ainda tem mais coisas por aí. Em um determinado momento, estamos tão cansados de sentir o que sentimos, que quando entramos em crise, simplesmente nos culpamos, e a culpa é o que piora cada vez mais o nosso estado. Meus pensamentos suicidas evoluíram depois da minha última tentativa de suicídio.
No dia 24 de março de 2015, manhã de terça-feira eu tive um surto e entrei em crise. A minha crise mais grave. Simplesmente planejei tudo e coloquei em prática tudo aquilo que havia imaginado. Foi veneno. E pouco antes de desmaiar, já prestes a ter uma parada cardiorrespiratória, o meu corpo, já involuntariamente consciente, atende uma ligação e sem querer informa o lugar onde estou e como posso ser encontrada. Eu não me lembro como foi que eu cheguei a avisar e pedir socorro, só sei que desmaiei e quando acordei, já era o dia seguinte e eu já estava internada na sala vermelha de um hospital, totalmente fraca, debilitada, com a pressão baixíssima e ainda correndo risco de vida.
O que me doeu primeiramente foi ver a aflição que provoquei na minha família. Nós depressivos imaginamos sim que aquele que nos amam vão sofrer se nos perderem, mas há uma grande diferença entre imaginar e de fato ver com os próprios olhos. Logo que acordei, não apresentei melhora alguma e por isso fui urgentemente transferida de hospital para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Posso afirmar que eu sofri muito nesse tempo. As dores, o medo da morte, a depressão, a vergonha, a culpa e a vontade de não voltar a viver agravou ainda mais o meu estado. As críticas de quem não sabia o que se passava comigo me atordoavam. Recebi muito apoio nessa época, principalmente porque ninguém acredita que você vai um dia tentar tirar a sua própria vida. E só quando você realmente tenta e vai parar num hospital entre a vida e a morte, é que as pessoas te olham com mais importância e enxergam que você realmente precisa de ajuda.


Infelizmente eu só comecei o tratamento psicológico e via medicamentos, depois desse ocorrido. Em várias crises anteriores eu pedi ajuda, mas as pessoas não entendiam de fato a gravidade da minha doença. Foi preciso eu quase perder minha vida, para mostrar que eu estava correndo risco de vida. A depressão tem tratamento, como eu já disse. E não é preciso chegar ao estado em que eu cheguei para começar o tratamento. Eu tive sorte. Talvez eu não estivesse mais aqui para contar história. Não posso dizer que me arrependo do que fiz. Aprendi muita coisa nessa fase difícil e foi exatamente nessa fase que eu descobri a minha verdadeira missão aqui na terra.
Como eu disse, meus pensamentos suicidas evoluíram depois dessa tentativa. Já penso em cortar pulsos, ou a garganta. Se envolve sangue eu já não me importo. Quem tenta suicídio, não está livre de tentar de novo. Muito pelo contrário. Está ainda mais suscetível a vir cometer novamente o mesmo erro. Eu reforço a ideia: procure ajuda. Não deixe as coisas para depois. A Depressão é a prova clara de que quando deixamos as coisas para a última hora, tudo se complica cada vez mais.
Claro que atualmente eu não estou em crise. Uma pessoa com Depressão, quando não está em crise, é simplesmente uma pessoa normal como todas as outras. Gosta de viver, de se divertir, de fazer as coisas que gosta e entre mil e uma coisas. Somos seres normais, que apenas precisam ser mais fortes do que o habitual para viver com essa ambiguidade que vem assolando frequentemente nossas mentes: querer viver desejando morrer. A Depressão pode ser o maior inimigo de uma pessoa, mas também pode se tornar um grande aliado. O mais importante é não ter medo de assumir a doença. Não é vergonha alguma ter a doença. E não somos nós quem decidimos se vamos ter ou não essa doença. Como alguém que passa por isso, eu admito que a partir do instante em que eu assumi para mim mesma e para o mundo que eu tenho Depressão Severa, tudo mudou. E passei a me respeitar mais como ser humano. Sempre tive medo de perder amizades por ter esse problema, ou de talvez não ter a chance com alguém que eu gostasse de verdade por ter uma doença como essa. Mas aprendi uma coisa: as pessoas irão te criticar sempre, tendo ou não motivos para isso. Quem gosta de você de verdade, não te abandonará por uma doença ou qualquer outro problema ou defeito.
Hoje eu luto pela vida. E não só pela minha, mas pela vida de todas as pessoas que passam pelo que eu passo, principalmente. Estou viva para mostrar que é possível conviver com a doença e viver perfeitamente bem. Nós somos muito mais fortes do que nós imaginamos ser. Estou de braços abertos para ouvi-lo. De braços abertos para ajuda-lo, porque esse é o meu propósito de vida. Ninguém está totalmente sozinho nesse mundo. E por mais que as pessoas critiquem, se afastem, e não entendam o que é conviver com essa dor, ainda haverá um Deus maravilhoso que nos ama e que estará pronto para nós sempre que desejarmos.
Não desista da vida, porque a vida não desistiu de você. A Depressão é a doença da Alma, mas como qualquer outro obstáculo que surge em nossas vidas, ela é apenas um dos quais podemos superar.

About the Author Carolina Santos

Sou formada em Administração pela UFPE e apaixonada por Psicologia. Lido com a Depressão desde sete anos de idade. Sou apaixonada por leitura e escrita. E meu maior sonho é poder ajudar as pessoas através das minhas experiências de vida. Participem do meu grupo no Facebook: https://www.facebook.com/groups/1969510996617235/ Lá eu interajo mais com vocês sobre a Depressão Abraço :*

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