Um breve olhar sobre a experiência traumática em crianças refugiadas da Síria

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Uma breve explicação histórica e dados atuais:

“Há mais de três anos, a Síria vive uma guerra civil sem precedentes, atualmente com mais de 190 mil mortos.





A motivação para estes confrontos são questões políticas e religiosas. Insatisfeitos com o governo do atual presidente da Síria, o ditador Bashar Hafez al-Assad, que se encontra no poder há 14 anos, grupos extremistas tentam destitui-lo através da força armada. O resultado desta situação caótica repercute diretamente na população. Trata-se da maior crise desde a segunda guerra mundial.”

Hoje, a situação na Síria é crítica, com milhares de mortos e mais de 3 milhões de refugiados em todo o mundo. 1 em cada 8 sírios já deixaram o pais. A maioria são crianças e mulheres que tentam fugir da crueldade do Estado Islâmico e consequentemente do caos que no momento se encontra seu país de origem.

Os bombardeamentos são diários.

Algumas crianças estão sendo abandonadas na Turquia, pois a maioria dos genitores que ali chegam, retornam à Síria para lutarem na guerra civil. A ONU afirmou recentemente que mais de 1 milhão de refugiados são crianças, a maioria com menos de 11 anos, apenas 1/5 delas tem acesso a serviços psicológicos, não frequentam a escola e estão sendo utilizadas como mão de obra barata.

Sem ter direito à infância, sem ter direito a um futuro, estas crianças necessitam de auxilio pontual e assertivo da ONU. Esta posiciona-se afirmando que esta geração de refugiados é uma geração perdida pela guerra civil.

Condição dos refugiados:





A vida de todas as pessoas é repleta de mudanças, sendo necessário que afrontemos estas modificações de modo positivo e adaptativo. No entanto, existem mudanças que além de imprevistas, são dramáticas, drásticas e limítrofes para a saúde mental humana por não se tratar de uma mudança comum, normal ou esperada como é o caso dos refugiados da Síria.

Atualmente, como sabemos, os refugiados sírios são obrigados a fugir para todas as partes do mundo. Vivenciam uma verdadeira diáspora em busca de algum meio de sobrevivência, na expectativa de recomeçar uma vida nova, apesar das incertezas e muitas vezes da falta de garantias.

A imigração por si mesma, é um fato potencialmente traumático, pois os refugiados estão deixando forçosamente para trás o seu país, sua cultura, seu idioma, sua identidade etnológica, enfim sua rotina de vida e suas referencias na esperança de encontrar abrigo e acolhimento.

Sobretudo de paz.

No entanto, depois de uma longa caminhada, geralmente encontram a miséria e a fome, a falta de acolhimento e abrigo. Encontram a desesperança e a sensação de perigo iminente constante. Encontram uma vida de incertezas, experimentam o caos e o desespero,no intuito de dar uma pausa ou mesmo recomeçar uma nova vida em meio a separações, luto, dor ,desamparo e da constante angustia e pressão psicológica.

Repercussões Psicológicas:

Nem é necessário relatar que é extremamente angustiante deixar sua própria pátria, sua cultura e seus costumes por conta de crises politicas no pais de origem. É uma condição que se caracteriza como uma experiência altamente aflitiva não ter para onde ir, não saber ao certo o que vai acontecer, não satisfazer as condições básicas de sobrevivência.

A reelaboração e ressignificação de situações psicológicas limítrofes requerem uma boa estrutura psicológica e resiliência para afrontar a crise existencial que assola a condição dos refugiados.

Para um adulto, que apresenta “estrutura psicológica organizada e estruturada”, a guerra, a fragmentação abrupta dos laços familiares e o desamparo são em si uma situação extremamente traumática.

Para um novo processo de adaptação, gasta-se um grande dispêndio de energia, o que necessita de um suporte afetivo-emocional, pois a fragilização que um refugiado vivencia, muitas vezes não é suficiente para mobilizar os seus recursos internos.

Sentimentos de auto acusação se mesclam à culpabilização por se ter sobrevivido e a sua família não, por não ter se considerado suficientemente capaz de ajudar, proteger e salvar a vida dos seus entes queridos.

Em uma criança que está em processo de desenvolvimento e estruturação afetivo-emocional e psíquica, isto é muito mais grave do que se pensa, necessitando, portanto, de um olhar mais acurado e da conscientização e sensibilização da sociedade e do posicionamento das autoridades competentes que se ocupam dos direitos da criança e do adolescente.





A criança refugiada necessita elaborar suas perdas e traumas para se estabilizar afetivo-emocionalmente, movimento imprescindível para sua readaptação e integração a sua nova realidade.

Em condições particulares de guerra e na condição de refugiados, este evento provavelmente desenvolverá problemas psicológicos de adaptação, e em crianças o caso ainda é mais grave, já que estes ainda não apresentam maturidade física, psicológica e neurológica capazes de “sustentar” um estado limítrofe de estresse e caos, pois como relatei anteriormente, a criança ainda está em processo de desenvolvimento, se configurando o evento como uma devastação psicológica.

Todo este conjunto de acontecimentos causam graves impactos psicológicos na estruturação da vida destas crianças, seja no momento presente como futuramente, caso não sejam devidamente ressignificados, visto que não devemos esquecer acerca do ciclo da violência vivida e não elaborada que repercute diretamente na saúde mental do individuo em processo de desenvolvimento.

As repercussões psicológicas oriundas da guerra e do desamparo, principalmente em crianças, são imensas, não podendo ser negligenciadas. Isto porque apesar de que necessidades primárias como alimentação e abrigo são indiscutivelmente urgentes para a sobrevivência, não deixam de ser menos importantes as perdas reais e simbólicas sofridas, a vivência do desespero, da dissolução dos laços familiares e culturais, podendo estes serem fatores eliciadores importantes para o desenvolvimento de mecanismos de defesa psicológicos aos traumas e perdas, tais como os transtornos de ajustamento, as dissociações psicológicas e as formações reativas.

Não ficam de fora o potencial desenvolvimento de distúrbios psicossomáticos e psiquiátricos como o Estresse Pós- Traumático, a Síndrome do Panico, a depressão pós-traumática e distúrbios do sono, acompanhados de pesadelos constantes. Resumindo: além das reações psicofísicas, a situação traumática afeta todas as áreas de suas vidas nos aspectos comportamentais e relacionais. Sendo assim, estas crianças ainda não possuem capacidades e competências para vivenciar um trauma, se configurando, portanto, em uma experiencia altamente devastante.

Infelizmente, continuam os crimes de violação dos direitos humanos e não se vê assertividade das autoridades internacionais para dirimir os conflitos e a crise humanitária que não só destrói patrimônios históricos da humanidade, como o Templo Histórico em Palmira, mas a própria humanidade em si, pois o maior patrimonio é a vida.

About the Author Soraya Rodrigues de Aragão

Soraya Rodrigues de Aragão é psicóloga, psicotraumatologista, escritora e palestrante. Realizou seus estudos acadêmicos na Unifor e Università di Roma. Equivalência do curso de Psicologia na Itália resultando em Mestrado. Especializou-se em Psicotraumatologia pela A.R.P. de Milão. Especializanda em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde - Universidad San Jorge (Madri) e Sociedad Española de Medicina Psicosomática y Psicoterapia. Sócia da Sociedade Italiana de Neuropsicofarmacologia e membro da Sociedade Italiana de Neuropsicologia. Autora do livro Fechamento de Ciclo e Renascimento: este é o momento de renovar a sua vida. Edições Vieira da Silva, Lisboa, 2016; e do Livro Digital: "Transtorno do Pânico: Sintomatologia, Diagnóstico, Tratamento, Prevenção e Psicoeducação. É autora do projeto «Consultoria Estratégica em Avaliação Emocional». Sites: www.sorayapsicologa.com & www.alquimiadavida.org

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