Como um EU é construído

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É preciso destacar primeiro que o homem nasce corpo/consciência. Isto quer dizer que o sujeito concreto nasce com uma dada condição física e fisiológica, trazida com o seu corpo e com uma certa condição de estabelecer relação com o mundo, trazida pela consciência. Essas são condições de possibilidade para o seu se estabelecer, mas não são o seu ser. Sua essência (quer dizer, aquilo que define a especificidade de seu ser, no caso do homem, sua personalidade) não está dada, precisará ser construída. Daí a necessidade de um processo histórico de totalização das relações do sujeito com o mundo, mediadas pelo antropológico e pelo sociológico, que constituirão, assim, os estados, ações e qualidades que, unificados, formarão a personalidade. Com isso, fica claro que nascemos ninguém e nos tornamos alguém específico nesse processo de construção constante de nosso ser. Ou seja, primeiro existimos, estabelecemos relações com o mundo, para então, a partir daí, nos personalizarmos, nos essencializarmos: A existência precede a essência.





Em segundo lugar, o indivíduo nasce inserido em um dado espaço social. Não há nenhum ser humano que nasça sem amarras sociais; mesmo os bebês abandonados desde o nascimento, sem vínculos familiares, precisam ser cuidados por alguém. Quer dizer, a criança sempre é inscrita em um determinado contexto antropológico: nasce em um certo local, com sua cultura, seus valores específicos; em um certo tempo e numa determinada classe social, com suas condições materiais, produtivas, ideológicas; em uma certa família, rodeada de certas pessoas, com seus valores e racionalidades específicas. Essa inscrição no social é a condição primeira para a personalização do sujeito. Uma criança afastada do convívio social não se personaliza, permanece ao nível animal comum e não desenvolve a consciência reflexiva (condição de possibilidade para a formação de um EU).





É o caso dos ”meninos selvagens”, que ilustram bem essa afirmação. Tais crianças, criadas por animais, quando encontradas e trazidas para a convivência humana comportavam-se como animais, não indo além de suprir suas necessidades de sobrevivência, apesar de sua estrutura orgânica ser da espécie humana. Faltou a elas o aprendizado das características propriamente humanas, como a linguagem, a reflexão, os hábitos sociais de alimentação, vestuário, etc. Com isso, não conseguiam atribuir significado às coisas que experimentavam e, assim, colocá-las a serviço de um projeto, de um desejo. A ausência de relação com outros homens impôs a essas crianças a condição de ”animal comum”, não viabilizando a constituição de suas personalidades, que só começaram a se esboçar, adquirindo características humanas, a partir do momento em que foram trazidas para a convivência com outros homens. Poderíamos esclarecer ainda melhor essa situação com as palavras de Leontiev:

O desenvolvimento mental da criança é qualitativamente diferente do desenvolvimento ontogênico do comportamento nos animais. Esta diferença provém, sobretudo, da ausência nos animais, de um processo essencial no desenvolvimento da criança: o processo de apropriação da experiência acumulada pela humanidade ao longo de sua história social.

Dessa forma, a criança é inserida no que poderíamos designar de ”placenta social”, quer dizer, um espaço existencial, sociológico, onde ela é ”alimentada” com conhecimentos, valores, crenças, afetividade, que viabilizam a sua formação como sujeito humano. Esse espaço, inicialmente, na grande maioria dos casos, é o da família. As pessoas que cercam a criança, desde cedo vão forjando um projeto para ela ao efetivarem um conjunto de expectativas em seu entorno: consideram-na parecida com o pai em certos aspectos físicos e psicológicos, com a mãe em outros, com os avós nisso e naquilo, e assim por diante; dizem que ela é muito quieta, ou muito agitada, que chora muito ou pouco, etc.; querem que aja de determinada maneira, irritam-se quando ela age de outro, mostram como deve se comportar; constroem, aos poucos, uma maneira de lidar com ela, na afetividade e na racionalidade.

A estrutura das famílias, dos grupos primários a que o sujeito pertence, é interiorizada pela criança em atitudes e reexteriorizadas em práticas, pelas quais ela se faz ser aquilo que fizeram dela. Esse processo de construção é experimentado, em um primeiro momento, na alienação. O que quero dizer com isso? É que a criança pequena não nasce com a capacidade de refletir. No início de sua vida, ela somente estabelece relações espontâneas com o ambiente que a cerca, sustentadas em consciências de primeiro grau, pré-reflexivas. É só mais tarde, com o processo de relação com o mundo, mediado por outras pessoas, que aprenderá a refletir, a abstrair. Sendo assim, não tem posição de si, pois ainda não tem um eu constituído, está no processo de formação da personalidade e, por isso, seu ser acaba por ser, inicialmente, modelado pelos outros. Vive, nesse momento, seu ser como um tem-que-ser, o eu enquanto uma tarefa a realizar.





Todo esse processo de mediações (positivas e/ou negativas), na medida em que a criança vai adquirindo a capacidade de abstrair, vai sendo apropriado reflexivamente por ela, constituindo a inteligibilidade ou a certeza de ser que terá de si mesma. Para tomarmos posição de eu, posicionarmo-nos enquanto ”sujeito” dos nossos atos, é necessária uma consciência de segundo grau, reflexiva; portanto, é através da reflexão que vamos estabelecendo um entendimento de como agimos e sentimos, de como pensamos sobre as coisas que nos cercam, enfim, de quem nós somos. Qualquer pessoa unifica o seu ser, sua personalidade com amarras reflexivas; é essa racionalidade, enquanto totalização reflexiva de nossas ações, estados e qualidades, que consolida o cogito ou saber de ser do sujeito, constituindo-se no núcleo atômico de onde emanam as forças que sustentam a sua personalidade em sua dinâmica. O saber de ser é, portanto, construído pela apropriação singular que o sujeito faz da inteligibilidade dos acontecimentos que lhe ocorrem, dos valores, crenças e diferentes racionalidades existentes no contexto social, antropológico em que está inserido, mediatizados pelas pessoas que o cercam. É essa dialética entre a subjetividade e a objetividade que determinará a personalização dos indivíduos.

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