Filhos: o perigo de amar demais

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Há quem não queira ter filhos. Esse é um direito que, definitivamente, é inerente à condição humana. Há, por outro lado, aqueles cuja vida só terá sentido se e quando tiverem filhos. Esse também é um direito que está ligado à condição humana. Não é o desejar ou não desejar ter filhos que nos torna aptos ou inaptos para conviver em sociedade.





O que faz isso é o modo como temos educado nossos filhos, quando os desejamos demais, quando sonhamos com eles por longo tempo e quando tornamos a vida deles, a nossa vida. Não é sobre aqueles filhos que vieram de susto nem sobre aqueles pais e mães que fizeram o melhor que puderam e foram os melhores pais/educadores que puderam ser, de uma maneira inesperada e improvisada, que esse texto trata.
Pelo contrário, é sobre aquelas pessoas que só conseguiram atribuir um sentido para suas vidas, depois que se tornaram pais e mães. Há um risco muito grande de nós, irremediavelmente apaixonados por nossos filhos, os idolatrarmos e, com isso, os desumanizarmos.





Engana-se quem pensa que o único objetivo de ser pai e ser mãe é amar os filhos e fazê-los sentirem-se amados. Não. É necessário ensinar-lhes sim sobre o amor. Mas também devem aprender sobre limites, sobre direitos e deveres. Sobre respeitar o outro e sobre amar o outro, para assim, merecer ser amado.
Há quem desobrigue os filhos de serem seres humanos melhores, demonstrando efusivamente apoio incondicional mesmo quando agem de maneira egoísta e individualista, confundindo essa atitude superprotetora e nociva com amor incondicional.
Quando uma criança age de maneira imprudente, os pais precisam mostrar-lhe as consequências de seus atos. Quando age de maneira egoísta, é preciso que os responsáveis lhe mostrem que suas atitudes afetam os outros e sua falta de atitude, também. É o caso da carência de equilíbrio, por exemplo, com relação ao desempenho em qualquer competição a que a criança é exposta, nos primeiros anos de vida. Estimular a competitividade, como se a criança fosse ou tivesse de ser a melhor em tudo é contribuir para uma formação insensível e contrária aos princípios de solidariedade que, em teoria, todos se vangloriam de buscar. Do mesmo modo, é ineficaz deixá-la pensar que pode desistir de qualquer competição, já que o mundo não lhe deixará impune diante desse comportamento.
É doloroso ser pai e ser mãe. É mais doloroso quanto mais há consciência das responsabilidades que se tem nas mãos, quando se fala em dar o exemplo, em nortear, orientar, apontar possibilidades e rumos na vida de outro ser humano. Não se pode errar por amar demais, protegendo a criança de frustrações, tornando-a eterna vencedora de uma disputa sem adversários. Não podemos proteger os filhos da vida, nem podemos desenvolver em suas mentes e em seus corações a impressão absurda de que deverão vencer sempre, nem de que poderão vencer sempre, a qualquer custo; mesmo que isso signifique deixar para trás aqueles que importam, ou que deveriam importar.
Amar os filhos significa, portanto, ensiná-los sobre a vida e, diante do mundo em que vivemos, sobre valores que devem distanciá-los do consumismo e da coisificação das pessoas e aproximá-los dos outros seres (humanos ou não) e de solidariedade, humildade, honestidade e respeito.

About the Author Júlia Pereira Damasceno de Moraes

Mulher, filha, mãe, esposa, professora, educadora, eterna aprendiz. Graduada em Letras pela Universidade do Planalto Catarinense. Especialista em Leitura e Produção de Texto. Leitora inveterada. Aspirante a escrevente. Amante do saber e do conhecimento. Preocupada com o rumo que os adolescentes e jovens estão tomando e com a falta de referencial de vida para muitos dos alunos com os quais convive 12 horas por dia. Os pais se preocupam com o mundo que vão deixar para os filhos, mas não estão se preocupando com os filhos que vão deixar para o mundo. Isso é grave!

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