Você tem fome de quê?

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Outro dia ouvi tocar distante a música dos Titãs, Comida. Ao ouvi-la, ficou martelando na minha cabeça a questão: Você tem fome de quê?
Será que temos o costume de nos questionarmos quanto a isso nos dias de hoje? Ou será que estamos consumindo de tudo, para somente depois perceber se foi indigesto ou não?





Será que estamos sentindo e pensando sobre aquilo que realmente queremos ou estamos sendo manipulados em nossos desejos?
No desenho Alice no país das maravilhas, o gato diz à Alice: “se você não sabe onde vai, qualquer caminho serve”. E os caminhos são muitos hoje em dia, porém, nem todos são saudáveis, nem todos te alimentarão e muitos deles farão você estagnar ou retroceder em sua vida.
A quantidade de caminhos é tão variada quanto a quantidade de indivíduos, mas saiba que nem todos convém seguir. Entre em contato com você mesmo e perceba aquilo que seu organismo precisa: amor, amigos, família, paz, sinceridade, prazer, conquistas, emoção, potência, dinheiro, sexo, competição, poder, bens materiais dos mais diversos etc.
O que alimenta sua alma?
Você sabe o que quer e o que te afeta ou está sendo levado pela onda de ansiedade e depressão que assola o mundo? Você preza pela qualidade ou pela quantidade?
Mesmo que saibamos com certeza o que queremos na vida, somos seres frágeis e frequentemente somos levados pelo nosso medo ao desconhecido, pelo medo do nosso próprio poder de transformação e vitória. Reich chamou esse medo de angústia orgástica, que poderia ser resumida como medo do prazer, onde diante da possibilidade do prazer, o organismo se contrai e represa a excitação que poderia libertá-lo. Essa contração mantém o indivíduo num modo de funcionamento neurótico.
Temos o potencial da libertação e expansão, mas nos aprisionamos nas masmorras dos nossos condicionamentos, da nossa educação e das nossas vaidades. O nosso caráter, como já foi descrito em outro texto, é nossa prisão que tenta proteger nosso ego de tudo aquilo que possa nos ameaçar. Ficamos protegidos, mas também imobilizados e insensíveis.
Exemplo disso são as contradições que vemos todos os dias nos jornais: se desejamos a paz, fabricamos armas com a desculpa de garantir a paz, promovemos manifestações onde a violência sempre é justificada, criamos guerras “santas” e falamos em um Deus que só está na ponta da língua, mas nunca experimentamos o seu significado através do sentimento. Se queremos tratar a fome, acabamos com a natureza e a terra fértil que sempre nos forneceu alimento. Regamos esses alimentos com agrotóxicos, fertilizantes e pesticidas. Estamos nos alimentando com drogas. Os animais são geneticamente modificados, recebem anabolizantes, antibióticos etc. etc. etc. No lugar de eliminar a fome, muitos pensam em eliminar os famintos.





Andamos rápidos demais para perceber um ser humano que precisa realmente de ajuda. Reclamamos da corrupção porque somos diretamente atingidos, mas será que faríamos diferente se estivéssemos lá e soubéssemos que nada iria nos acontecer se roubássemos? Uma propina aqui, um nepotismo ali, uma obra superfaturada acolá. Temos fatos históricos que mostram que o poder transforma o oprimido em opressor do dia para a noite. Somos contraditórios quando queremos expressar o amor. Nosso orgulho o transforma em descaso. Estamos sempre negando a vida em nossos corpos e isso faz com que a mente reaja enrijecendo as relações e tirando nossa sensibilidade. Temos medo de manifestar nossa opinião em público e perdemos a oportunidade de saber que muitas pessoas concordam com as nossas ideias. Costumamos valorizar mais as ideias do outro do que as nossas próprias.
Gostaríamos de ousar voar, mas ocupamos nossa mente com o risco da queda. Perdemos a beleza de novos mundos porque temos medo de mergulhar nas profundezas.





Queremos nos libertar de nossas mazelas, mas abandonar algumas delas pode parecer perder alguma parte do corpo.
Minha avó sempre dizia que quando apontamos o dedo para alguém existem outros três dedos apontados para nós. Ou seja, poderíamos primeiro observar nossa própria conduta antes de sair por aí criticando os outros sem ter argumentos que possam contribuir para a transformação social.
Espero que fique claro que não estou defendendo nem justificando nenhum ponto de vista. Eu também tenho minhas críticas, mas percebo que reclamamos de coisas que também fazemos. Se criticamos alguém, isso também diz alguma coisa sobre nós mesmos. Existe uma identificação inconsciente e um desejo latente de estarmos do outro lado.
“A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte”.
O homem não é aquilo que possui, não é um rótulo, não é um título, não é um status, não é uma mercadoria, nem uma conta bancária. O homem é uma criatura humana que precisa enxergar e compartilhar o que existe de humano e vivo no ser. Temos fome de muitas coisas, mas raramente nos alimentamos da verdade.
Nossa fome desenfreada e impensada se transformou em gula e passamos a não perceber se estão nos servindo sobras como prato principal. Estamos aos poucos abrindo mão do sabor, do tempero, do preparo, das boas companhias à mesa. Queremos devorar a felicidade, mas não sabemos cultivá-la. Estamos colhendo sempre os frutos amargos do egoísmo e da solidão.
Você tem fome ou apenas tenta preencher um vazio que cresce a cada dia e você não sabe explicar o que é?
O vazio é a angústia do homem quando se vê diante do nada e precisa se responsabilizar sobre a sua vida e fazer suas próprias escolhas. A angústia que poderia nos sinalizar algo é vista como infelicidade que deve ser remediada ou medicalizada. Passamos de um angustiado infeliz para um consumidor iludido. Nos consideramos civilizados porque somos incapazes de enxergar nossas barbaridades.
Temos medo da vida em movimento, em expansão constante. Se nossa zona de conforto é colocada em risco, rapidamente nos protegemos e dizemos que estamos fazendo isso em nome de algo além de nós.
Quando será que perceberemos que somos sós que geramos nossa própria miséria, nossa própria armadilha. Queremos que as crianças cresçam felizes e saudáveis, mas somos os primeiros a bloquear o amor e a reprimir todo o tipo de expressão de liberdade.
Será mesmo que o ciclo da vida se resume em nascer, crescer, amadurecer, procriar, envelhecer e morrer?
Poderíamos incluir alguns elementos fundamentais que Reich sempre nos lembrava: o amor e as relações verdadeiras, o trabalho e toda produção de valor intelectual e criativo, o conhecimento e todas as formas de saber que possam nos desenvolver enquanto seres humanos.
Poderíamos evitar muitos transtornos psíquicos e muitas doenças físicas se tivéssemos como base o amor, o trabalho e o conhecimento na dimensão em que Reich percebia.
Muitos imaginam que os fins justificam os meios, sem perceberem que os meios também fazem parte do fim.
Você tem fome de quê? Está plantando o quê?
A tua piedade ou solidariedade depende da cor ou da aparência daquele que passa fome?
Nos alimentamos de pena, raiva, preconceito, poder, luxúria, vaidade, vícios, mas não conseguimos entender porque o nosso vazio só aumenta. Porque essa angústia diante do devir?
Nos julgamos livres por acreditar que estamos do lado de cá da miséria, mas olhem o que está sendo feito com o dinheiro público. A nossa crise não é econômica, mas política e de valores morais.
Estamos sempre trocando a liberdade por “segurança” e não percebemos que isso limita nossa espontaneidade de viver.
Não podemos aprisionar a natureza, uma hora ela quebra todas as algemas e se manifesta pulsando vida e energia.
Você tem fome de quê?
Será que estamos plantando aquilo que queremos colher?
Será que nossas ações estão de acordo com a nossa forma de pensar e de sentir?

“A gente não quer só comer
A gente quer comer e quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer para aliviar a dor”.

About the Author Alexandre Salvador

Psicólogo clínico, psicoterapeuta corporal, ávido leitor, pai coruja, bom humor acima de tudo, um buscador dos mistérios da vida... www.alexandremsalvador.com

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