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Mentes aprisionadas: Do impasse ao suicídio de David Foster Wallace

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Ele deixou mais de uma dúzia de lâmpadas acesas em sua sala de trabalho. Elas iluminavam um manuscrito inacabado; ao lado desse manuscrito havia uma carta de apenas duas páginas. Esta foi a noite em que David Foster Wallace se enforcou. O suicídio de Wallace em 2008, na idade de 46 anos, devastou a comunidade literária. Ele era na época aclamado como um dos mais brilhantes escritores, um dos mais inovadores de sua geração.





Seu romance “Jest infinito” foi amplamente elogiado pelos críticos por ter redefinido a ficção americana pós-moderna. O manuscrito sobre a mesa no qual Wallace tentou desesperadamente terminar, seria publicado posteriormente como ” O Rei pálido”. Mesmo que fragmentado, segundo os críticos o romance pode ser considerado um dos seus melhores trabalhos. Apesar de Wallace ter se frustrado muito pela sua incapacidade de terminar o livro, estava numa das melhores fases de sua vida: havia se casado há quatro anos e vivia confortavelmente na Califórnia fazendo um trabalho que amava. Então por que ele tirou a própria vida ?
O suicídio de Wallace não foi uma surpresa para os amigos próximos. Ele tinha problemas desde a adolescência; era um gênio, no entanto, tinha muitas dúvidas que às vezes o paralisavam como escritor. Quando jovem era dependente de álcool e maconha, essas substâncias ajudavam a acalmar sua constante ansiedade. Ele já havia tentado o suicídio antes e uma de suas ficções havia descrito o estado mental que leva alguém a cometer um suicídio, o que era um sinal de alerta. No entanto, Wallace tentou se salvar, tomava antidepressivos desde a faculdade, e na época de sua morte era um membro ativo e dedicado dos Alcoólicos Anônimos. Havia obtido sucesso em deixar o álcool e a maconha há anos. Embora fosse propenso a ataques de raiva e tivesse um comportamento recluso, ele lutou contra seus impulsos autodestrutivos e procurou a ajuda de seus colegas dos AA e de seus colegas literários.
No entanto, as questões permanecem: Por que alguém que lutou por tanto tempo para se manter vivo acabou com a própria vida de forma tão violenta? Por que alguém que tinha tanto talento e era reconhecido por isso optou por não seguir adiante? O que que estava por trás de seu brilhante intelecto e vontade formidáveis que o impediu de continuar ? Qual foi a causa subjacente da depressão que levou à profunda infelicidade de Wallace?





Desde a infância Wallace queria se destacar dos demais, ser diferente, primeiro como estudante, depois como escritor. Ele queria que o reconhecessem como o gênio que era. No entanto, assim que foi aclamado pelos críticos se tornou inquieto e, em seguida, desesperado pelo sucesso. Ele queria ser uma boa pessoa mas suspeitava que havia algo errado na forma em que havia obtido sucesso, se experimentava subjetivamente como uma fraude. Os amigos mais próximos dizem que esse conflito se desenvolveu desde a infância, os pais de Wallace eram altamente intelectuais, com padrões rigorosos, e Wallace viu-se forçado a impressioná-los. Seu pai, James, era um acadêmico dedicado e trabalhou com problemas filosóficos difíceis por décadas. Sua mãe, Sally, era professora de Inglês em Parkland College e era ferozmente apaixonada pela gramática. Em 1980 escreveu um livro que ensinava gramática de uma forma dinâmica e apresentou-o para seus filhos pequenos. Wallace se entusiasmou com o livro e amava brincar com as palavras, fazia brincadeiras com sua mãe sobre o significado e a pronunciação das palavras, ” Ele realmente queria que nossos pais tivessem orgulho dele”, disse sua irmã Amy, “Ele achava que nossos pais não reconheciam o quão inteligente ele era”.
Os contraditórios anseios por grandeza misturados à sensação de falso sucesso a cada realização, fizeram com que ele se fechasse cada vez mais. Ele chamou atenção para suas tentativas suicidas em seu conto “Good Old Neon”  que narrava a história de um jovem publicitário que descreveu o próprio suicídio. Quanto mais dedicava seu tempo e esforços para impressionar e atrair as pessoas, mais se sentia uma fraude. Tentava impressionar e agradar as pessoas para que elas não descobrissem a suposta “fraude” que era.





“Wallace não se autocriticava por achar que era estúpido ou burro, mas por não conseguir se apropriar psicologicamente das suas realizações intelectuais, por achar que ”fingia” a própria inteligência”, disse o romancista Mark Costello, que foi um velho amigo e colega de quarto dele. Acrescentou,”Ele foi criando um auto-pessimismo sem fundamento real e costumava dizer: “Eu sou um falso tipo de inteligente, pois finjo minha própria inteligência”. Wallace foi assombrado pelo “paradoxo da fraude”, como ele chamou em “Good Old Neon”.

Ele estava sempre em estado de alerta, sempre atento aos sinais de fraudulência que poderia demonstrar, embora soubesse que existe um pouco disso em todos nós, ele não permitia que isso acontecesse com ele. Certa vez, rabiscou na margem de um livro: “Grandiosidade – A necessidade constante de ser e ser visto como um superstar”. Esse pensamento ficou preso em sua cabeça e fazia com que se sentisse muito mal sempre que encontrava algo que pudesse ameaçar sua credibilidade. Qualquer coisa poderia servir de gatilho: elogios críticos, sucesso acadêmico, alguém rindo de suas piadas.  Tudo isso era como minas terrestres plantadas por ele mesmo. Sentia uma separação entre como era percebido e como ele realmente acreditava que era. Se achava uma fraude e não conseguia reconhecer o próprio sucesso. Tornou-se solitário, via-se por uma perspectiva irreal e isso começou a ganhar cada vez mais força em sua mente.

A depressão envolve um foco contínuo em pensamentos, experiências, memórias e sentimentos negativos, e o esquecimento das experiências positivas. Quando uma pessoa restringe a sua atenção e foca apenas nos estímulos negativos, a mente lentamente tenta se auto destruir. Foi provavelmente este processo que aconteceu com Wallace, ele estava ciente disso mas se achava incapaz de mudar.

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Isso chama-se “aprisionamento”, seus efeitos podem ser prejudiciais ou benéficos, dependendo da nova perspectiva adotada. Esse aprisionamento envolve mais do que apenas mudar o foco da nossa atenção. Ele muda nosso humor, pode evocar a memória ou a imaginação, o desejo ou o medo . Quando você está “aprisionado” pode ser que alguém chame o seu nome em determinado tom e  você interprete isso como uma crítica pessoal, e isso pode te deixar de  ansioso ou inseguro, nesse caso você teve uma perspectiva diferente da realidade. A experiência ocorre fora do controle consciente e nos rendemos a ela sem querer.
Quando orbitamos em torno de um estímulo, passamos a agir em resposta ao sentimento ou à necessidade despertada por ele. Cada vez que respondermos a esse estímulo, fortaleceremos o circuito neural desse estímulo. À medida que continuamos a reagir da mesma forma ao mesmo estímulo, ao longo do tempo sensibilizamos a aprendizagem, a memória e os circuitos de motivação dos nossos cérebros, assim criamos padrões emocionais e comportamentais diferentes a partir desse estímulo. Nossos pensamentos, sentimentos e ações começam a surgir automaticamente toda vez que haja um gatilho que ative esse estímulo.
Ficou claro para mim a partir de minhas conversas com os pais de Wallace que eles tinham plena consciência do ciclo negativo em que seu filho estava aprisionado. Seja o sucesso pessoal ou profissional, Wallace filtrou as informações e as interpretou de modo errado. Este tipo de filtragem foi prejudicial e o levou à auto-dúvida. Em sua vida comovente caiu em uma espiral que culminou no seu suicídio. Em outros casos, isso pode levar à auto-mutilação, violência contra os outros, ou até mesmo ao homicídio.
Eu perguntei a Steve Bunney, professor emérito de psiquiatria na Universidade de Yale  sobre a natureza da dor de Wallace, por que esse sentimento é incapacitante para algumas pessoas, mas não para outras? “Para alguém como Wallace, na forma mais simples, tratou-se de uma desconexão entre a pessoa que ele queria ser e a pessoa que se percebia” Bunney disse que “Há uma sensação de perda do controle. Se você acha que não tem controle pode entrar em apuros-se tiver ansiedade ou depressão isso pode ameaçar à sua própria vida. suicidas sentem que não há outra maneira de escapar dos pensamentos e sentimentos negativos senão através da morte. Um dos paradoxos do suicídio que ele pode se tornar a última e única a maneira que uma pessoa tem de exercer controle sobre si mesma “. Bunney apontou que não é incomum que  pessoas bem sucedidas de todas as esferas se sintam aflitas com o próprio desempenho tanto no âmbito profissional quanto no pessoal. Uma pesquisa demonstrou que pessoas altamente realizadas frequentemente relatam que têm a sensação de serem uma fraude, não conseguem reconhecer o próprio sucesso ou não se sentem merecedoras disso, muitas delas cresceram e adquiriram sucesso genuinamente como Wallace fez, porém, elas não vêem o sucesso por essa perspectiva.
Nos concentramos em estímulos específicos porque as redes de neurônios que temos e que nos permitem dar sentido ao mundo, não respondem igualmente a tudo que está ao nosso redor. Nosso cérebro faz uma distinção entre o que é mais importante daquilo que é menos importante, o que pode nos chamar à atenção pode ser algo que esteja fora do lugar ou algo ameaçador. Isso se chama “atenção seletiva” e é a porta de entrada para a nossa consciência. Assim se tiver muitos objetos em nosso campo de visão, não conseguiremos processá-los de uma só vez porque têm muitos estímulos ao mesmo tempo. Usamos o mecanismo de atenção seletiva para que certos estímulos se tornem mais persistente que outros sem importância, assim focamos naquilo que é mais importante e deixamos o resto de lado.
Tudo que estamos prestando atenção fica na nossa memória de curto prazo, se um certo estímulo atraí nossa atenção por diversas vezes, ao longo do tempo nosso cérebro reage instintivamente e não começa a reagir sempre da mesma forma a esse determinado estímulo, isso se torna um processo automático e inconsciente. Quando nossa reação a determinado estímulo discordar de nossas intenções conscientes sentimos que estamos perdendo o controle, essa perda de controle é uma das principais do aprisionamento.

Nem sempre estamos conscientes dos estímulos que estão dominando a nossa atenção e isso pode, em última instância, acabar dominando nossas ações, pensamentos e sentimentos. Essa influência é implícita e quase imperceptível à mente consciente. Se você sente medo sempre que tem de falar em público, provavelmente essa ansiedade está baseada em alguma resposta anterior frente uma situação semelhante, num estímulo que ao longo do tempo você permitiu que ganhasse força e que se arraigou em sua mente devido à atenção que você, inconscientemente, deu a estas experiências. Acabamos desenvolvendo padrões de comportamento e respostas emocionais a certos estímulos sem estarmos cientes disso.

O processo de aprisionamento sempre ocorre inconscientemente. Conforme toma conta, absorve a nossa atenção, o que faz com que sintamos que estamos perdendo o controle ou que nossos pensamentos estão fora de controle. Essa sensação pode nos induzir ao medo e até mesmo ao pânico. Alternativamente, o aprisionamento também pode fazer com que nossa consciência seja canalizada a um estímulo positivo. Todos nós estamos vulneráveis ao aprisionamento da mente, precisamos dar sentido ao fluxo de estímulos aleatórios ao qual somos bombardeiam a todo momento.

A vida de David Foster Wallace oferece um exemplo do que pode acontecer quando o aprisionamento é direcionado para si mesmo, quando a sensibilidade se torna em extremo perfeccionismo, o que leva à auto-crítica conjunta a uma incapacidade de aceitar as próprias falhas. O sofrimento se torna inevitável mesmo que tentemos evitá-lo.
Wallace foi pego por este corredor e se viu sem escapatória devido ao sofrimento e desespero causados pela auto-crítica, através de sua própria desaprovação que sempre precisava se afirmar e, mesmo assim, não conseguia se apropriar destas experiências, ficando preso nesse ciclo infinito de dúvida, desaprovação e sofrimento. Como escreveu certa vez: “Nada e ninguém é independente da dor universal… tudo faz parte do problema”.

Fonte: PsychologyToday traduzido e adaptado por Psiconlinews

 

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