A Psicologia da Culpabilização da Vítima

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No mês de agosto o comediante e antigo escritor Kurt Metzger reacendeu um debate nacional sobre a culpabilização da vítima ao fazer uma série de postagens violentas, nas quais criticava a forma como as mulheres denunciavam os crimes que sofriam e o efeito que isso tinha sobre o acusado.





Kurt resolveu expor as suas críticas no Facebook depois que um ator do Teatro “Upright Citiziens Brigade” de Nova York foi expulso do elenco porque várias atrizes vinham acusando-o de abuso sexual e agressão física.

Kurt escreveu num post já removido do Facebook:

“Sabe por que disseram isso? Porque são mulheres! Todas as mulheres são tão confiáveis quanto a minha Bíblia! Um livro que assim como uma mulher, é incapaz de mentir!”, e continuou criticando as mulheres por não procurarem a polícia em vários outros tipos de comentários maldosos. Então a sua ex-chefe, Amy Schumer, uma feminista assumida, inevitavelmente acabou entrando na história e denunciou publicamente os comentários de Kurt: “Estou realmente triste, ele é meu amigo e um grande escritor, estou muito decepcionada com as ações humilhantes que ele vem tomando ultimamente”.





A culpabilização da vítima se manifesta de muitas formas, e na maioria das vezes ocorre de forma sutil e inconsciente. Ela pode ser aplicada a casos de estupro e agressão sexual, mas também pode se manifestar em crimes mais leves, como por exemplo, no caso de um crime em que uma pessoa é acusada de ser responsável por ter sido roubada só porque carregava a carteira no bolso de trás. A culpabilização da vítima ocorre sempre que alguém questiona a vítima por não ter agido de forma diferente no momento do crime.

O conceito de culpabilização da vítima não é universal, em muitos países a cultura local é responsável por camuflar esse tipo de atitude, ou não considerá-lo como um delito grave, que fira os direitos individuais de uma pessoa. Nem todo mundo acusa explicitamente a vítima por não ter agido de forma diferente a fim de evitar o crime que ocorreu com ela, de fato, em suas formas mais discretas, as pessoas nem percebem que estão fazendo isso, como dito anteriormente, a culpabilização da vítima muitas vezes ocorre de forma não-intencional como, por exemplo, quando você ouve falar de um crime e logo pensa que a vítima poderia ter sido mais cuidadosa.





“Eu creio que o fator que mais promove a culpabilização da vítima é a hipótese de que o mundo é justo“, diz Sherry Hamby, uma professora de psicologia, segundo ela “A hipótese de que o mundo é justo transmite a ideia central de que as pessoas merecem aquilo que acontece com elas, porque tudo o que acontece conosco é resultado de nossas próprias escolhas”. E isso não é verdade, é mais fácil encarar as coisas desse modo, no entanto, não é assim que as coisas funcionam. Sherry explica que este desejo de ver o mundo como justo é ainda mais forte entre os norte americanos, já que foram criados em uma cultura na qual o sonho americano é promovido através da ideia de que todos nós controlamos o próprio destino”. Em outras culturas, onde existem guerras e pobreza, há um maior reconhecimento de que às vezes coisas ruins acontecem na vida de pessoas boas”, disse Sherry. “Mas, em geral, os americanos têm dificuldade para aceitar a ideia de que coisas ruins também acontecem na vida de pessoas boas. “Dizer que a vítima é parcialmente responsável pelo crime que ocorreu com ela é uma maneira que as pessoas encontram para não admitir ou reconhecer que algo tão impensável também poderia acontecer com elas, mesmo que não tenham feito nada de errado.

Segundo Barbara Gilin, professora de trabalho social na Universidade de Widener, independente do crime, as pessoas tendem a culpar a vítima, esse é um mecanismo de defesa que as impede de enfrentar a verdade e aceitar as notícias ruins. “Ao meu ver, as pessoas culpam as vítimas para que  possam continuar sentindo-se seguras de si mesmas“, disse Barbara. É engraçado que as pessoas aceitem catástrofes naturais como inevitáveis e quando se trata da ação de um ser humano elas prefiram culpar a vítima em vez de aceitar a verdade do crime. As pessoas acham que fazendo isso estarão mais protegidas caso um crime ocorra com elas, pois com certeza tomariam mais precauções a fim de evitá-lo, pelo menos é o que acreditam. Essas pessoas têm uma maior dificuldade em aceitar que as vítimas, na grande maioria das vezes, não contribuem para que o crime ocorra. As pessoas sempre acham uma maneira de justificar as ações do culpado, acham que nada de mal irá acontecer com elas, dessa forma se sentem mais seguras. “Com certeza houve alguma razão para que o filho do vizinho fosse assaltado, o pai daquela criança deve ter feito algo de errado, aquilo nunca teria acontecido com o meu filho”.

Sherry acrescenta que mesmo as pessoas mais bem intencionadas às vezes contribuem para a culpabilização da vítima como, por exemplo, terapeutas que trabalham em programas de prevenção contra violência e agressão sexual e instruem as mulheres sobre como ter cuidado para não se tornarem uma vítima. Acho que “a coisa mais segura a ser feita seria nunca mais sair de casa, assim teria uma menor probabilidade de sofrer algum crime”, disse ela. “Não creio que as pessoas tenham desempenhado um bom papel ao acharem que informar sobre os limites de responsabilidade de uma pessoa iria evitar que os crimes aconteçam”.

Laura Niemi, Ph.D em psicologia na Universidade de Harvard, e Liane Young, professora de psicologia na Universidade de Boston, tem realizado pesquisas sobre o fenômeno da “Culpabilização das vítimas” e esperam obter resultados positivos para que esse fenômeno seja eliminado ou pelo menos reduzido em grandes proporções.

Este verão elas publicaram as descobertas de uma de suas pesquisas numa revista bem conhecida, a “Personality and Social Psychology Bulletin”. A pesquisa, que envolveu 994 participantes e quatro estudos separados, trouxe várias descobertas significativas. Em primeiro lugar, elas observaram que os valores morais desempenham um grande papel na determinação da probabilidade de que alguém venha a se envolver em comportamentos de culpabilização da vítima, classificando a vítima como “responsável” em vez de “prejudicada” e estigmatizando a pessoa por ter sido vítima de um crime. Niemi e Young identificaram dois conjuntos principais de valores morais: os valores de ligação e os valores individualização. A maioria das pessoas tem uma mistura dos dois, as pessoas que apresentam valores de ligação mais fortes tendem a favorecer ou proteger um grupo bem como os interesses de uma equipe como um todo, ao passo que pessoas que apresentam valores individualizantes mais fortes são mais focadas na prevenção de danos individuais.

Em outro estudo, Niemi e Young apresentaram aos participantes  vinhetas que descreviam crimes hipotéticos, tais como: “Lisa foi abordada por Dan em uma festa, Dan deu uma bebida enriquecida com Rohypnol para Lisa. Mais tarde, naquela noite, Lisa foi violentada por Dan”. Foi questionado aos participantes o que poderia ter sido feito para que o crime não ocorresse. Os participantes que apresentavam valores de ligação mais fortes foram mais propensos a atribuir a responsabilidade pelo crime à vítima ou sugerir ações que a vítima poderia ter tomado para mudar o resultado. As pessoas que apresentaram valores individualizantes mais fortes fizeram o oposto.

Logo em seguida Niemi e Young manipularam a estrutura das frases nas vinhetas, dessa forma era impossível saber quem era a vítima e quem era o opressor. Alguns grupos receberam vinhetas com a vítima no lugar do opressor (por exemplo, “Lisa foi abordada por Dan”) já outras receberam vinhetas com o opressor no lugar da vítima (por exemplo, “Lisa se aproximou de Dan”).

Quando o agressor era colocado no lugar da vítima o nível de culpabilização das vítimas decaía significativamente, então os pesquisadores deram aos participantes um pequeno pedaço de papel para que explicassem explicitamente como o resultado poderia ter sido diferente, ao fazer isso, observou-se que afirmações tais quais: “Ah, ela poderia ter chamado a polícia” ou “Ela foi negligente”, também decaíram significativamente. Foi difícil para eles darem respostas plausíveis àquilo que as vítimas poderiam ter feito para evitar o crime. Os pesquisados se concentravam menos no comportamento da vítima em geral. Isto sugere que a forma como apresentamos estes casos pode mudar a forma como as pessoas pensam sobre as vítimas.

As pessoas em geral são mais solidárias com vítimas que elas conhecem bem, então a maioria das vítimas de crimes relatados na mídia tendem a sofrer de culpabilização da vítima. As vítimas são estranhas para a maioria das pessoas, ninguém as conhece, ao culpabilizar a vítima as pessoas evitam admitir a clara evidência de que o mundo nem sempre é justo com todo mundo. Coberturas que se concentram mais na história e na experiência da vítima também são mais propensas à culpabilização da vítima, histórias que incidem mais sobre o autor do crime são menos propensas a provocar esse tipo de reação. “Essa é uma descoberta interessante, pois sugere que mesmo que desejemos ser simpáticos e solidários com as vítimas, quando focamos demais na história da vítima ou no crime acabamos pensando no que a vítima poderia ter feito para evitá-lo”, disse Laura.

Na sua essência, a culpabilização da vítima poderia resultar de uma combinação de falta de empatia com as vítimas e uma reação ao medo desencadeado pelo instinto humano de autopreservação. Essa reação ao medo, em particular, pode ser difícil de controlar para algumas pessoas. Sherry e Barbara enfatizam a importância da empatia, de ver o mundo pela perspectiva das outras pessoas, pois  isso evitaria que as pessoas caíssem na armadilha de especular o que a vítima poderia ter feito de diferente para evitar o crime. Dizer que “Ela deveria ter evitado falar com o cara” é o mesmo que dizer “Qualquer pessoa em sã consciência seria capaz de evitar o crime”, disse Sherry.

Laura sugere que chegar à raiz do problema pode envolver a reformulação da maneira como pensamos sobre o culpado, bem como as vítimas, particularmente em casos de estupro. “Uma coisa realmente problemática é a mitificação do estupro, a maioria das pessoas acreditam que as vítimas de estupro poderiam ter evitado o ocorrido, pois é muito fácil reconhecer um estuprador; acontece que muitas vezes é impossível reconhecer um estuprador”, ela explica que “Quando o estupro ocorre, é tão horrível que as pessoas não são capazes de conceber a ideia de que o próprio filho, irmão ou alguém conhecido poderia ser um estuprador”. Barbara explica que reconhecer o crime pode ser ainda mais difícil para os entes queridos dos autores desse tipo de crime, é difícil conciliar o fato de que alguém que eles conheciam tão bem possa ter praticado tal ato de violência.  Em alguns casos, isso pode levar a um excesso de empatia para com o culpado, colocando o foco sobre suas outras realizações ou atributos, como o que aconteceu com a cobertura do caso de estupro de Stanford, no qual  Brock Turner foi inúmeras vezes descrito como “estrela da natação” em vez de estuprador. Este é outro tipo de mecanismo de defesa que as pessoas próximas aos culpados utilizam para negar ou diminuir a relevância do crime, a fim de evitar ter que lidar com o difícil processo cognitivo de aceitar que eles foram capazes de tal coisa.

Não importa o que queremos acreditar, o mundo nem sempre é justo. Pode ser um pouco difícil e exigir algum esforço cognitivo aceitar que coisas ruins às vezes acontecem com pessoas boas e que as pessoas aparentemente normais, por vezes, podem fazer coisas ruins.

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